Com abertura de capital em vista, CSN Mineração expõe 6 mil trabalhadores ao coronavírus e se nega a negociar

Empresa irmã da Vale – ambas foram criadas por Getúlio Vargas no início dos anos 40 – a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) é a segunda maior exportadora de minério de ferro do Brasil e a sexta do mundo. Opera a mais antiga mina do tipo, a Casa de Pedra, que começou a ser explorada em 1913.

Em Congonhas, cidade histórica de Minas Gerais conhecida pela obra de Aleijadinho declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, 6 mil trabalhadores se revezam em turnos ininterruptos de 24 horas para extrair 30 milhões de toneladas de minério por ano.

Até o momento, Congonhas investiga 125 casos suspeitos de coronavírus. E a CSN tem uma resposta para prevenir o contágio: não fazer praticamente nada.

Vídeos e fotos obtidos pela reportagem mostram trabalhadores circulando normalmente pelas instalações da empresa como se nada estivesse acontecendo no Brasil e no mundo. Os 6 mil operários da CSN Mineração não podem escolher entre ficar em casa e proteger a si mesmos e as suas famílias ou não.

Todos trabalham em Congonhas, mas, além da cidade-sede, boa parte dos trabalhadores moram em cidades próximas como Conselheiro Lafaiete, Belo Horizonte, Mariana, Ouro Preto e Ouro Branco. Ou seja: o risco de contágio é generalizado.

Além de não fazer nada, a CSN também se recusa a negociar com os trabalhadores, que pedem a interrupção imediata das atividades. Procurada pela reportagem, a CSN teve a mesma postura: se negou a comentar a situação.

Registros foram feitos nesta semana em Congonhas

Esse é o jeito Benjamin Steinbruch de fazer negócios, o bilionário carioca que é presidente da CSN e principal acionista da empresa. Um dos homens mais ricos do Brasil, Steinbruch também é vice-presidente da FIESP, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, que trabalhou ativamente pelo impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Bolsonaro, e esteve cotado para ser vice-presidente na chapa de Ciro Gomes.

No meio da pandemia, Steinbruch tem um bom motivo para tentar evitar que a CSN Mineração ganhe os holofotes: o executivo planeja abrir o capital da companhia com uma oferta pública de ações. O braço minerador da CSN em Congonhas tem sido a salvação do grupo: em 2019, mais de 80% da geração de caixa da CSN veio das vendas de minério de ferro. O mercado é taxativo: com coronavírus ou não, a oportunidade para a CSN Mineração abrir o capital é agora.

Antes de potencializar o lucro, Steinbruch tem outra preocupação: a CSN deve R$ 27 bilhões na praça. Colocar a CSN Mineração na bolsa de valores é um dos meios mais rápidos para diminuir essa dívida. E a produção não pode parar. Por isso, os trabalhadores de Congonhas seguem se arriscando 24 horas.

Até este sábado, Minas Gerais tem quase 23 mil casos de coronavírus em investigação, 205 confirmados e 18 mortes em análise. O governador Romeu Zema (Novo), bilionário bolsonarista, estuda abrir alguns setores do comércio.

Trabalhadores aglomerados em ônibus

“A postura da CSN é um crime”

Rafael Ávila, presidente do sindicato Metabase Inconfidentes, que representa os 6 mil trabalhadores da CSN em Congonhas, é categórico: “a postura da CSN é um crime”. A regra de trabalhar de casa para parte do efetivo valeu somente para a turma corporativa da Faria Lima em São Paulo. As medidas anunciadas, na prática, foram ignoradas. E a negociação é inexistente.

“Nem sentar para negociar estão sentando. Soltaram um comunicado para a imprensa e não estão cumprindo nada. Os ônibus estão cheios. Até álcool em gel está faltando. É um absurdo completo o que a CSN está fazendo. O crime que eles cometem é gigantesco”, afirma Ávila.

Registros internos

Entre os valores que a CSN diz praticar estão “o respeito à vida, à ética e ao planeta”.

O sindicato Metabase protocolou uma denúncia contra a CSN no Ministério Público do Trabalho de Minas Gerais. Procurado para comentar, o MPT não conseguiu disponibilizar um porta-voz até o fechamento dessa reportagem.

O caso também foi denunciado na prefeitura de Congonhas, que está sob gestão de José de Freitas Cordeiro (PSDB), o Zelinho. Perguntamos à prefeitura o que pretende fazer sobre as denúncias que receberam dos trabalhadores da CSN, como isso pode afetar a cidade que vive em função das mineradoras e qual a estrutura de atendimento em saúde disponível hoje para a população.

Informações dão conta de que haveria apenas 4 respiradores para atender a população e nenhum leito de UTI. Procurada diversas vezes por email e telefone, a prefeitura de Congonhas não respondeu.

Refeitório: tudo normal

“Os casos estão muito subnotificados. Daqui a pouco vai começar a aparecer e vai explodir. A ampla maioria das famílias tem alguém que trabalha na mineração, diretamente ou indiretamente. Enquanto outros serviços pararam, a mineração segue normalmente. Isso é um absurdo completo. Só quando acontece a tragédia que de fato aparece. Se não tomar uma atitude vai ter uma tragédia. Uma explosão de contágio no conjunto das cidades mineradoras”, alerta Ávila.

Para o presidente do sindicato, medidas que tentam diminuir o perigo de contágio pelo coronavírus são totalmente ineficientes com a produção rodando normalmente. “Não tem como discutir uma política de amenização se não parar a produção. Porque é impossível. Elas são interligadas”, afirma.

Mesmo com a exploração acontecendo desde 1913, a mina de Casa de Pedra ainda tem muito a oferecer aos cofres da CSN. A detém mais de 6 bilhões de toneladas em recursos e 3 bilhões de toneladas em reservas, de acordo com estimativas de 2014. Só perde para a mina da Vale em Carajás, no Pará.

Uma das barragens mais perigosas do Brasil. “Entrave” para o mercado.

Situada a apenas 85 metros acima de bairros residenciais que abrigam 10 mil pessoas em Congonhas, a barragem da mina de Casa de Pedra é uma das mais perigosas do Brasil. A capacidade de armazenamento de rejeitos é 5 vezes maior que a barragem da Vale que se rompeu em Brumadinho: cerca de 50 milhões de metros cúbicos. É uma das maiores barragens do mundo situada em área urbana.

Assustada, a população vive com medo. A operação de minério da CSN detona explosivos todos os dias e episódios como os de tremores de terra, por exemplo, ameaçam ainda mais a estabilidade da estrutura. Esse pesadelo diário deve ser desativado pela CSN, no melhor cenário, em 20 anos. A barragem está classificada nas categorias mais altas de risco e dano potencial associados, segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas.

Na avaliação do mercado, a barragem também é um dos principais entraves para que a CSN Mineração abra o capital na bolsa de valores. “A barragem da CSN será um problema aos olhos do investidor, principalmente os estrangeiros, pelo histórico do que aconteceu no Brasil”, avalia Pedro de Marco, da Reach Capital.

Hoje, a CSN Mineração está dividida entre a CSN (87,52%), controlada por Benjamin Steinbruch, e o consórcio asiático JKTC (12,48%), composto por empresas japonesas, coreanas e taiwanesas.

Além da abertura de capital, das dívidas acumuladas e da pressão dos controladores, outro motivo pelo qual a produção não pode parar são os compromissos de longo prazo assumidos pela CSN Mineração.

Em 2019, a companhia fechou dois contratos de longo prazo (em fevereiro e em julho) para o fornecimento de minério de ferro à maior trader de commodities metálicas do mundo, a suíça Glencore, com pagamento adiantado total de 750 milhões de dólares. Cerca de R$ 3,75 bilhões de reais na cotação atual. Com isso, a CSN se comprometeu a entregar 32 milhões de toneladas de minério de ferro nos próximos 5 anos.

Em Congonhas, a barragem de Casa de Pedra é a maior, mas não a única. Uma população de aproximadamente 54 mil habitantes está cercada por 24 barragens. A CSN tem 13 estruturas, seguida pela Vale e Gerdau (cinco cada uma) e Ferrous (uma). São pelo menos 107,5 milhões de metros cúbicos de rejeito de mineração acondicionados nas barragens da cidade. Em caso de rompimento, Congonhas poderia ser varrida do mapa, mostra um estudo da própria secretaria de Meio Ambiente.

Benjamin Steinbruch, presidente da CSN

Perguntas sem resposta

Veja as perguntas enviadas pela reportagem que a CSN se negou a responder:

1) Trabalhadores ouvidos pela reportagem e vídeos obtidos mostram que a CSN continua com a sua operação rodando normalmente em Congonhas com turnos que funcionam 24 horas, trabalhadores aglomerados e nenhuma medida efetiva para prevenir o coronavírus foi tomada. Como a empresa responde a isso?

2) Trabalhadores também afirmam que a CSN se nega a sentar para negociar. Porque a CSN sequer se presta a ouvir os mais de 6 mil trabalhadores em Congonhas?

3) A CSN já identificou algum funcionário infectado com o coronavírus? Se sim, onde, quantos e em que contexto?

4) A CSN considera paralisar totalmente as atividades?

5) Em caso de avanço na epidemia de coronavírus – Congonhas já tem mais de 100 casos em investigação – e considerando a altíssima importância que a CSN tem na comunidade de Congonhas, empregando direta e indiretamente boa parte dos trabalhadores da cidade, como a CSN irá responder pela vida dessas pessoas? Independente disso, pretende ajudar o atendimento em saúde da cidade de alguma maneira? Se sim, como?

Maurício Angelo

Jornalista investigativo especializado em mineração, Amazônia, Cerrado, Direitos Humanos e crise climática. Fundador do Observatório da Mineração. Como freelancer, publicou matérias na Mongabay, Repórter Brasil, Intercept Brasil, Pulitzer Center, Thomson Reuters Foundation, Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), Unearthed, Folha de S. Paulo, UOL, Investimentos e Direitos na Amazônia e outros. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (2019).

5 thoughts to “Com abertura de capital em vista, CSN Mineração expõe 6 mil trabalhadores ao coronavírus e se nega a negociar”

  1. Tem que fechar ,,,só estão pensando em lucros não estão distribuindo máscara os ônibus estão indo lotados um descaso total já tem gente doente lá dentro estou indiguinada! Vai ser um caos

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