Romeu Zema, família Moreira Salles, Bolsonaro e o que está por trás da privatização do nióbio de Araxá

Privatizar a principal empresa do estado para pagar salários de servidores. A mesma empresa que explora uma jazida de nióbio extremamente rentável com previsão de vida útil para mais 200 anos. Araxá, sozinha, é responsável por 80% da produção mundial de nióbio.

Mesmo exclusivamente sob o ponto de vista econômico, a privatização da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig) encaminhada pelo governador Romeu Zema (Novo) parece um mau negócio. E é. A desculpa é que essa seria “a única saída” para o estado superar a “crise”.

Não estranha que a Codemig seja a primeira estatal – de controle misto, diga-se – a ser privatizada por Zema dentro do objetivo declarado de “privatizar todas as empresas de Minas”. Todas. É a cartilha ultraliberal da Universidade de Chicago seguida por Paulo Guedes, Salim Mattar e cia ltda na esfera federal.

A mesma cartilha que nem o Chile de Pinochet, uma ditadura sanguinária que reunia “as condições adequadas” para o “choque de gestão” de Milton Friedman, foi tão longe.

O plano de Zema é antecipar o dinheiro que teria a receber até 2032 na exploração do nióbio de Araxá, que é quando vence o contrato entre a Codemig e a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, a CBMM.

A CBMM repassa à estatal 25% do lucro líquido da operação e é titular de direitos de exploração de outra mina, um “arrendamento”. Essa “parceria” nem sempre funcionou tão bem quanto parece e as suspeitas de fraude são inúmeras. Voltaremos a isso.

Nas contas da turma do Novo, MG receberia de R$ 5 a 6 bilhões com essa antecipação e conseguiria pagar integralmente os salários de servidores que hoje estão recebendo em parcelas e garantir o 13º salário. Em 2018, o lucro total da operação foi de R$ 2,8 bilhões.

É com essa tática espúria que Zema pretende entregar um ativo precioso do estado de Minas Gerais que coloca a Codemig em posição de liderança mundial na produção de nióbio. O nome dado a essa série de medidas, que inclui a privatização, não poderia ser outro: “Todos por Minas”. Populismo ultraliberal clássico. No meio do caminho tem a Assembleia Legislativa de MG, que não costuma ser “empecilho” especialmente quando algumas velhas práticas muito eficazes são colocadas para rodar.

De Araxá, família Zema coleciona bilhões e amigos poderosos

A cidade de Araxá, no Alto Paranaíba, é dominada pela família Zema. O Grupo Zema, que hoje se espalha em centenas de lojas de varejo e outros serviços por todo o estado, foi fundado em Araxá pelo bisavô de Romeu Zema Neto quase 100 anos atrás.

O governador de Minas é dono de 30% do Grupo Zema que faturou em 2017 R$ 4,5 bilhões. O aeroporto de Araxá tem o nome do avô de Zema, também Romeu. Zema governador passou 18 anos filiado ao Partido da República, o PR, hoje “Partido Liberal”, embora tenha se vendido desde sempre como “novato” na política antes de se filiar ao Novo.

Essa rede centenária de amigos, contatos e privilégios tem se mostrado bastante útil para as pretensões políticas de Romeu Zema.

Família Moreira Salles, dona do nióbio brasileiro

 O grupo Moreira Salles controla a CBMM desde 1965. Hoje, possui 70% da empresa que é dona de 80% da produção de nióbio do planeta e vende para mais de 50 países. Outros 15% são de chineses e 15% de um consórcio japonês-sul coreano.

Graças ao nióbio, a família Moreira Salles, que fez fortuna no setor bancário, tornou-se a mais rica do Brasil.

Os quatro filhos de Walther Moreira Salles – Fernando, Pedro, João e Walter – têm uma fortuna combinada de US$ 27 bilhões, de acordo com o Índice Bloomberg de Bilionários. Todos eles são figuras extremamente conhecidas no cinema, nas artes e no jornalismo brasileiro.

Além do Instituto Moreira Salles e das carreiras cinematográficas de Walter e João, os irmãos são donos da revista Piauí, da literária Serrote e da Zum, de fotografia.

A fortuna da família na operação de nióbio vale mais do que a participação deles de US$ 7,1 bilhões no Itaú Unibanco Holding SA, o maior banco da América Latina por valor de mercado.

A CBMM processa 750 toneladas por hora nas instalações em Araxá, a cerca de 360 km de Belo Horizonte.

Em média, são necessários somente 200 gramas de liga de nióbio para fortalecer uma tonelada de aço, fazendo com que a produção mineira seja usada em automóveis, prédios, aviões, lentes de câmeras e um sem fim de outros usos. O nióbio está presente em um décimo de toda a produção de aço mundial.

O negócio é tão bom, tão exclusivo e tão lucrativo que a família Moreira Salles sequer cogita colocar a CBMM na Bolsa de Valores. Eles simplesmente não precisam do dinheiro e da pressão de investidores externos.

A margem de lucro de 37% faz dela uma das 10 mais lucrativas mineradoras com valor de mercado de pelo menos US$ 1 bilhão, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. O mais velho dos irmãos Moreira Salles, Fernando, de 66 anos, é o presidente do conselho da empresa e está envolvido de perto na sua gestão. Pedro, 53 anos, preside o conselho do Itaú Unibanco e integra o conselho da CBMM.

Nada disso parece empecilho para que Romeu Zema se apresse em vender o que resta de participação da Codemig no lucro farto, fácil e previsto para pelo menos mais 200 anos do nióbio de Araxá.

Divergências entre a Codemig e a CBMM e denúncias de fraude

A Codemig e a CBMM têm atualmente uma divergência referente ao valor que o Estado têm direito a receber pela extração e exportação de nióbio. Mais que uma divergência, as acusações indicam fraude.

Em abril de 2019 o ex-presidente da Codemig, Marco Antônio Castello Branco, denunciou à Comissão de Minas e Energia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) problemas na gestão da exploração do nióbio.

Ele afirmou que a CBMM não tem repassado o que deve ao Governo de Minas Gerais, além de não permitir acesso aos dados do negócio e apresentar dados inconsistentes.

Em Araxá, o mineral é explorado em duas jazidas: uma delas é da CBMM e a outra é da Codemig. Porém, quem faz todo o processo na mina que pertence ao estado é a CBMM, por meio da Comipa, que foi criada em 1972.

Segundo o ex-presidente da Codemig, Marco Antônio Castello Branco, a CBMM retira mais nióbio da jazida do estado – que seria mais rica –, o que teria provocado um prejuízo de bilhões de reais. Ele também acusa a CBMM de negar o acesso do Governo aos dados da jazida e apresentar números inconsistentes à União.

Apenas de 2012 a 2018, a Codemig contribuiu com 85 mil toneladas a mais de óxido de nióbio, que geraram R$ 3,5 bilhões de lucro, dos quais R$ 2,6 bilhões ficaram com a CBMM.

Marco Antônio apontou que há inconsistência nos relatórios de lavra da empresa privada e questionou registros de volume idêntico de minério extraído das minas de cada empresa, algo que ele considera impossível e que seria exemplo de maquiagem de dados.

Ainda segundo Marco Antônio, além de alguns termos do acordo estarem sendo desrespeitados, outros são vistos de forma diferente entre as empresas. Ele denunciou, por exemplo, a completa submissão da Comipa à CBMM.

Marco Antônio ainda afirmou que todas as informações que dizem respeito à exploração estariam sob controle da CBMM, que se recusaria a compartilhá-las, transformando a Comipa em apenas um instrumento para a extração do nióbio.

Essa situação foi confirmada pelo ex-presidente da Comipa, Ricardo Luiz Oliveira, que relatou ter preparado pedido de renúncia ao cargo ao perceber que tinha apenas o controle simbólico do negócio.

Quatro pareceres jurídicos encaminhados ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e à Advocacia-Geral do Estado sustentam o posicionamento da Codemig, segundo Marco Antonio, e serão usados na Justiça para embasar as reparações que a companhia solicita, entre elas, o ressarcimento pelo óxido de nióbio retirado a mais da mina que pertence ao Estado.

A CBMM da família Moreira Salles nega e afirma que a exploração está sendo feita estritamente seguindo o que prevê o acordo.

Novamente, nada disso parece impedimento para que Romeu Zema se apresse em vender a parte que é do estado de Minas Gerais a preços módicos, desprezando literalmente centenas de anos em lucro.

Bolsonaro, nióbio e notícias falsas

Os fatos mostram que Zema foi eleito governador depois de abraçar não só a retórica bolsonarista e querer se colar à figura do miliciano mas também usou da mesma tática de espalhar em massa notícias falsas para os eleitores.

Reportagem de Patrícia Campos Mello na Folha mostrou que Romeu Zema contratou empresas para espalhar fake News em massa no Whatsapp. Eleitores em MG receberam mensagens vinculando o voto em Zema ao voto em Bolsonaro dias antes do 1o turno. Zema, que estava em 3o nas pesquisas, terminou em 1o.

O mesmo esquema de notícias falsas que elegeu Bolsonaro, elegeu Zema. Minas Gerais foi uma espécie de laboratório para a fraude eleitoral praticada em todo o Brasil pelo PSL e os asseclas do miliciano. Zema parece bastante satisfeito com isso. O Partido Novo também.

Bolsonaro é um conhecido “entusiasta” do nióbio e desde os tempos de deputado vive alardeando “as maravilhas” do metal. Não são raras as oportunidades em que o presidente se mostra um verdadeiro embaixador do nióbio, tentando a todo custo atrair o interesse de investidores e da mídia. Uma obsessão, como outras, herdada de Enéas. E, pra variar, repleta de delírios.

Tal obsessão rendeu uma visita de Bolsonaro à CBMM três anos atrás e também algumas rusgas entre ele e a direção da empresa, o que parte de sua insistência em explorar outras jazidas de nióbio no norte do Brasil – no momento inviáveis – e criar uma espécie de “Vale do Nióbio” inspirado no Vale do Silício. Delírios que não encontram respaldo na realidade econômica do mercado no momento.

Em 2016, Bolsonaro discursou contra a venda de 30% da CBMM para o capital asiático. Queria “proteger” a riqueza brasileira de investidores estrangeiros. Como a sua guinada ultraliberal capitaneada por Paulo Guedes mostra, convicção não é algo que dá para esperar de um deputado que passou 30 anos parasitando o Congresso e mudando de partido ao bel prazer dos interesses espúrios da velhíssima política.

Depois de recuar em nomear executivo da Samarco, Zema nomeou executivo com origens em Poços de Caldas, a mesma da família Moreira Salles

Em fevereiro, circulou a informação de que Zema nomearia José Tadeu de Moraes, ex-presidente da Samarco, para a presidência da Codemig. Após enorme pressão, Zema recuou e nomeou Dante de Matos.

O currículo de Matos elenca a sua experiência em cargos do alto escalão de empresas na América Latina, Europa e África. Mais importante que isso, no entanto, parece ser o histórico familiar de Dante de Matos, que vem de Poços de Caldas, importante cidade do sul de Minas que foi o berço do lucrativo negócio bancário da família…Moreira Salles.

Foi em Poços de Caldas que João Moreira Salles pai fundou em 1924 a Casa Bancária Moreira Salles que deu origem ao que se tornaria o Unibanco, hoje parte do Itaú.

Esse blog local de Poços celebra a origem de Dante de Matos e enumera as suas relações.

“Dante de Matos é poços-caldense, integrante de família tradicional, filho do saudoso Edgar de Matos, já falecido, e Dona Gioconda, que reside em Poços de Caldas.

O novo homem forte da Codemig, uma das empresas mais importantes do governo do estado é irmão da sra. Cláudia, esposa do empresário Beto Borghetti, sobrinho de Gilberto de Matos, que foi presidente da Câmara Municipal e Milton, ambos também já falecidos. É primo do empresário do ramo imobiliário Antonio de Matos Neto e do secretário de obras, Luiz Fernando Cortezano. O nome Dante foi herdado do seu avô materno”.

Para quem conhece o mínimo da história política brasileira e sobretudo de Minas Gerais, parece bem além de uma “coincidência” que o responsável por finalizar o processo de privatização do nióbio explorado em MG seja de Poços de Caldas. E que a família Zema tenha a relação que tem com Araxá.

Além de Dante, outra figura importante na Codemig é Renato de Souza Costa, diretor de mineração, que passou 7 anos como gerente geral e analista de negócios da Vale, além de ter sido gerente de processos da Anglo American antes de assumir o cargo na Codemig.

Tudo em casa.

Maurício Angelo

Jornalista investigativo especializado em mineração, Amazônia, Cerrado, conflitos socioambientais, povos indígenas, crise climática e direitos humanos.

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