A Vale é grande demais para ser condenada. É nisso que acredita Fábio Schvartsman

Há uma expressão muito conhecida no mundo que diz que determinada firma é “too big to fail”. Em tradução livre: grande demais para quebrar. O termo define casos em que determinada empresa é tão grande e sistemicamente importante para a economia de um país que caso ela quebre os impactos seriam desastrosos e sentidos em larga escala. Por isso, o próprio governo costuma intervir para salvar essas empresas da bancarrota e “atenuar” os impactos negativos que essa falência causaria.

Um caso recente bastante significativo desse tipo de intervenção é a atuação do governo dos Estados Unidos para salvar General Motors, Chrysler e Ford em 2008, durante a grave crise global que quase varreu as empresas do mapa. O governo americano injetou mais de U$ 80 bilhões para evitar que elas falissem.

Pois bem: é por isso que o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, acredita que a empresa não será punida. Na prática, como Mariana mostra mais de 3 anos depois, ele tem razão. E não tem pudor algum em afirmar. “A Vale é uma das melhores empresas que eu conheci da minha vida. É uma joia brasileira, que não pode ser condenada por um acidente que aconteceu em sua barragem, por maior que tenha sido a tragédia”, afirmou Schvartsman nesta quinta (14) em audiência na Câmara dos Deputados.

A mensagem do presidente da empresa é clara: não importa que 166 pessoas morreram em função do rompimento da barragem em Brumadinho e que mais de 150 estejam desaparecidas. Não importa que mais de 3 anos atrás outra barragem da Vale se rompeu, matando 19 pessoas e causando o maior crime socioambiental da história do Brasil. A Vale é grande demais para ser punida. A Vale, como segunda maior mineradora do mundo e maior produtora de minério de ferro do planeta, tem poder demais para que seus executivos sejam condenados.

Não importa que a ciência da empresa sobre o alto risco de rompimento da barragem seja demonstrado em várias oportunidades pelo menos desde 2010, como mostramos aqui. O alto escalão da Vale sabia, foi avisado diversas vezes, episódios indicaram o enfraquecimento da estrutura sistematicamente – e tudo foi ignorado em função do lucro e da negligência. Para Schvartsman, “foi um acidente”.

No fim de 2018, a Vale quebrou um recorde de produção de minério de ferro, gerando mais de R$ 12 bilhões de caixa só no terceiro trimestre. Pelos “bons serviços prestados”, Schvartsman, que assumiu o cargo em abril de 2017, teve seu mandato renovado até 2020.

“Humildemente”, diz ele, “a Vale reconhece que o que vinha fazendo não funcionou”. Como é típico, o presidente da empresa firma seu discurso como se nada de relevante tivesse acontecido, coloca a culpa do rompimento da barragem em Mariana na conta da Samarco – mero preposto da Vale, que é de fato a dona dela em parceria com a BHP – diz que “o que aconteceu é inédito no mundo” e que “os padrões de segurança e estabilidade precisam ser a pedra fundamental da mineração”.

Não satisfeito, afirma que a empresa está buscando ajuda externa, com a US Army Corp Of Engineers, órgão que licencia barragens nos Estados Unidos, para “rever seus processos”. Sugeriu ainda que esse órgão contribua para o novo Código de Mineração.

Esqueceu de avisar que a Vale e outras mineradoras financiaram campanhas de boa parte dos deputados que encabeçaram as discussões sobre o Código, atualizado por decreto e transformado em MP por Michel Temer e que já perdeu a validade. Entre eles, o ex-deputado Leonardo Quintão, contumaz lobista que havia sido escolhido por Onyx Lorenzoni para fazer a interlocução da Casa Civil com o Senado e foi ejetado do governo Bolsonaro depois de Brumadinho. As mudanças feitas por Temer no Código foram repudiadas por mais de 70 organizações e movimentos sociais.

Tudo isso é apenas mais um mero detalhe para Schvartsman e a Vale, acostumados com a impunidade absoluta em função da sua importância econômica e política – e que tem muita – muita – gente no bolso em função disso.

Maurício Angelo

Jornalista investigativo especializado em mineração, Amazônia, Cerrado, Direitos Humanos e crise climática. Fundador do Observatório da Mineração. Como freelancer, publicou matérias na Mongabay, Repórter Brasil, Intercept Brasil, Pulitzer Center, Thomson Reuters Foundation, Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), Unearthed, Folha de S. Paulo, UOL, Investimentos e Direitos na Amazônia e outros. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (2019).

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