Afastamento temporário de presidente e diretoria da Vale é só cortina de fumaça

Não há nada para comemorar no afastamento temporário de Fábio Schvartsman, presidente, e Peter Poppinga, Lucio Cavalli e Silmar Silva, diretores da Vale. Além de se tratar de mero jogo de cena, os quatro rescindiram somente de modo temporário, e o fizeram somente após serem ameaçados de prisão pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e Ministério Público de Minas Gerais.

O pedido, no popular, tenta evitar que a cúpula da mineradora continue influenciando de modo decisivo nas investigações e compartilhe “informações sensíveis” de qualquer natureza. Ou seja: é preciso dar alguma satisfação, já que a contagem de mortos ultrapassa 300 pessoas, incluindo os que estão desaparecidos há mais de um mês embaixo da lama. Para estas famílias, não só não houve carnaval como não haverá paz por muito tempo. E sequer o mínimo suporte da Vale, como reportado insistentemente e como a experiência de Mariana nos mostra.

O pedido veio depois que a Folha de S. Paulo revelou que gerentes afirmaram para os investigadores que a diretoria da empresa sabia muito bem dos problemas graves na estrutura da barragem que rompeu em Brumadinho.

As provas, como temos mostrado aqui, se acumulam. É inequívoca a ciência da cúpula da empresa pelos problemas. E a tentativa de passar por cima de todos os avisos, como o fato de ter contratado a TUV SUD depois que outra empresa se negou a atestar a estabilidade da barragem. O afastamento temporário de Schvartsman, no entanto, tem o único objetivo de evitar a prisão imediata e acalmar o mercado. Na linguagem empolada dos rentistas:

“Schvartsman foi uma figura fundamental por trás da transição de governança corporativa da Vale para o Novo Mercado, estratégia de desinvestimento e desalavancagem , foco de corte de custos, disciplina de investimentos e discurso de valor sobre volume que gerou externalidades positivas nos mercados de minério de ferro, impondo maior racionalidade e, consequentemente, menor volatilidade nos preços do minério de ferro. O banco tem a recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado)”.

Traduzindo: trata-se de um queridinho do mercado que estava entregando muito – muito – lucro para os acionistas e executivos da mineradoras. Explicamos em detalhe como Schvartsman seguiu a política do presidente anterior, um dos responsáveis pelo rompimento da barragem em Mariana, de tornar a Vale “uma das maiores pagadoras de dividendos do país”.

A carta de Schvartsman é um verdadeiro show de mentiras, faltando com a verdade linha a linha e afirmando coisas que não tem qualquer vínculo com a realidade. Por exemplo:

Desde os dramáticos eventos de 25 de janeiro, venho dedicando todos os minutos de meus dias e noites, no limite máximo de minhas forças, às frentes de reação da companhia àqueles eventos, determinadas por esse Conselho e por mim mesmo, em conjunto com os demais membros da Diretoria, com absoluta priorização do atendimento às vítimas e às suas famílias, à apuração direta e à cooperação com a apuração dos fatos e à preservação das atividades da Vale, cruciais para o Estado de Minas Gerais e para o Brasil”.

Não podemos negar que a única parte verdadeira é a final: para preservar as atividades da Vale, contra tudo e contra todos, Schvartsman tem se dedicado bastante. Esta matéria da BBC de 06 de fevereiro ilustra bem:

Enquanto bebês choravam no colo de mães que não tinham onde se sentar (a mineradora disponibilizou cadeiras em número bem inferior ao de participantes) e idosos caminhavam com dificuldade pelo terreno de terra batida, três funcionários da Vale – Edvaldo Braga, Vítor Libânio e Humberto Pinheiro – diziam que “não tinham autonomia” para responder aos pedidos. “Não temos condições de assumir responsabilidade sobre algo que não temos conhecimento. Precisamos entender a extensão deste problema. Ainda não temos informações suficientes para responder a estas solicitações”, repetiam os representantes da mineradora à plateia, 12 dias após a ruptura da barragem. 

É de se acompanhar o quanto as jogadas até aqui revelam sobre as estratégias da Vale para – novamente – escapar impune do assassinato de 300 pessoas e de um gravíssimo crime ambiental. A certeza do poder do seu dinheiro sobre a justiça não é novidade alguma.

Em novembro de 2018, 2 meses antes do rompimento, Schvartsman foi escolhido o “CEO do Ano” na 24ª edição do BRAVO Business Awards, em Miami, promovido pelo Americas Society/Council of the Americas. Na ocasião, afirmou “o prêmio é um reconhecimento não só a mim, mas aos 110 mil empregados da Vale em todo o mundo. Olhando para o futuro, estou confiante de que estamos bem posicionados e continuaremos a gerar mais valor do que qualquer outra mineradora do mundo”.

Na época, a empresa ainda se gabava de que, sob a sua liderança, a produção de minério de ferro da Vale atingiu níveis recordes e, em 2017, o valor das ações da empresa praticamente dobrou – de US$ 43,8 bilhões para US$ 78,8 bilhões.

A que custo humano e ambiental a produção da mineradora atingiu níveis recordes parece bastante claro. Se conseguirão imputar a responsabilidade sobre empresas terceirizadas ou funcionários de baixo escalão é uma novela que está longe do fim.

Maurício Angelo

Jornalista investigativo especializado em política, Amazônia, mineração, conflitos socioambientais, povos indígenas e direitos humanos.

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