Sem água, sem renda e sem respostas: moradores de Minas Gerais e do Espírito Santo seguem esquecidos pela Vale/BHP

A pandemia agrava uma situação já crítica que as pessoas que sofrem as consequências dos rompimentos de barragens em Mariana, em 2015 e Brumadinho, em 2019, conhecem bem há anos.

Em São Joaquim de Bicas, em Minas Gerais, moradores de um residencial com 200 famílias que usavam a água do Rio Paraopeba, destruído pelo rompimento de Brumadinho, dependem hoje da água de caminhões pipa entregues por uma empresa contratada pela Vale.

Mas o abastecimento, que deveria acontecer a cada dois dias, tem falhado sempre. Moradores ficam até 5 dias sem água, nem todos receberam reservatórios adequados e o auxílio emergencial que a Vale deveria pagar foi cortado pela metade.

“Precisamos pedir socorro 24 horas para sermos ouvidos. Temos que ligar cobrando o abastecimento. Muitos sequer têm caixa d´ água. Se cortarem a água como vamos ficar?”, pergunta Josiane Andrade, moradora do Residencial Fhemig.

A maioria dos moradores, conta, tem plantações de frutas e hortaliças. Antes, usavam a água do rio e de poços artesianos. Desde o rompimento da barragem, há 1 ano e meio, a água dos poços não pode ser usada mais.

Recentemente, os moradores chegaram a fazer um protesto contra o corte do auxílio emergencial e o abastecimento precário de água. O auxílio faz parte de um acordo feito entre a Vale, o Ministério Público de Minas Gerais e o Governo de Minas. Com a pandemia, a situação se agravou.

Segundo Josiane, que mora há 4 anos em Bicas com o marido e 4 filhos, a Vale não tem cumprido os acordos, mesmo dizendo o contrário.

“Cortaram os auxílios pela metade sem critério algum. Outros não recebem. Por isso nós estamos buscando justiça”, conta.

A Vale diz que o abastecimento de água acontece diariamente e que o auxílio segue sendo pago. A realidade contada pelos moradores, no entanto, é outra bem diferente.

Segundo dados da CPT, Minas Gerais é o estado com o maior número de conflitos pela água registrados no Brasil. Foram 128 conflitos em 2019, mais de 91% causados por mineradoras. A violência desses conflitos inclui mortes, agressões, contaminações, intimidação e omissão.

No Espírito Santo, quase 5 anos sem resposta

Os atingidos pelo rompimento em Mariana completarão 5 anos com a vida destruída pela mineração em novembro de 2020. Milhares de pessoas ao longo dos 900 quilômetros do Rio Doce de Minas ao Espírito Santo viram a sua vida piorar consideravelmente.

Francisco Oliveira, o Maninho, 55 anos, nasceu e cresceu em Baixo Guandu, na divisa entre os dois estados.

Maninho possui uma propriedade em uma ilha no meio do Rio Doce. Ali, tinha uma criação imensa de porcos e galinhas, além de frutas como laranja, mexerica, limão. Vendendo o que produzia, Maninho não precisava contar o dinheiro para chegar ao fim do mês.

Desde 2015, tudo mudou. Os animais não sobreviveram aos rejeitos tóxicos da Vale/BHP, novos bichos também não resistem a ficar ali e a produção de frutas caiu pelo menos 60%.

“No começo recebi água e depois cortaram. Tive que entrar na justiça. Não quero ganhar um rio de dinheiro. Quero o valor dos meus bichos para poder começar uma nova vida”, reivindica.

Maninho só recebeu água potável por caminhão nos 4 primeiros meses. Depois, a Vale deixou de mandar. Precisou recorrer à justiça em 2016 para fazer valer os seus direitos. Na última audiência, em 2018, a Vale queria uma autorização em branco para se comprometer a indenizar algo, sem valores, sem nada. Maninho, com recomendação do próprio juiz para não aceitar a proposta, não aceitou.

Maninho e o filho Arthur. Foto: Nilmar Lage / Brasil de Fato

Antes, usava a água do rio Doce para tudo. Consumo pessoal, na criação de bichos e na lavoura. Vive somente com o cartão de auxílio da Vale, cerca de R$ 1500 por mês. Valor muito abaixo do que ganhava com a produção.

A maioria das pessoas na região, conta, não recebeu nada e não foi indenizada. Pescadores, agricultores e comerciantes também precisaram entrar na justiça. E esperam até hoje.

“O meu sonho seria o rio voltar a ficar limpo. Mas isso não volta tão cedo. A Vale diz que está fazendo um trabalho bonito na bacia do Rio Doce. Aqui na minha região eles não estão reflorestando, não estão limpando a água, não tá acontecendo nada. Eles falam pra gente que a água tá apta para o consumo, mas se recusam a provar”, diz Maninho.

Quando o produtor convidou um fiscal da Vale a provar a água do rio, já que ele garantia que estava potável, o representante da mineradora se recusou.

A pandemia tirou até o emprego que Maninho conseguiu em uma cidade próxima. A inflação causada pelo coronavírus agrava a situação e o auxílio pago pela Vale nunca teve reajuste em 5 anos.

“Eu tinha uma vida estável, tranquila. Hoje preciso fazer conta no começo do mês para saber se vou conseguir chegar até o fim do mês com algo. Piorou muito. Espero que pelo menos os meus netos vejam o Rio Doce recuperado”, me disse Maninho.

Na foz do Rio Doce, um vilarejo turístico virou um lugar fantasma

Regência é um vilarejo de pescadores que fica em Linhares (ES), no encontro do Rio Doce com o mar. Muito procurado por surfistas, é considerada uma das melhores praias do país para o surfe. E tem uma forte tradição cultural com o Congo, conjunto de danças, músicas e práticas populares trazida da África. Regência ainda é conhecida pelo herói local e capixaba Caboclo Bernardo.

Transformado em um lugar fantasma desde o rompimento da barragem em Mariana, Regência vive ainda o isolamento causado pelo coronavírus.

Lurdes Vieira, 74 anos, vive em Regência há 45 anos. Antes pescadora e dona de bar, abriu uma pousada, a Lady Lu, há 20 anos. Viu toda a transformação que a vila de pescadores passou. E o impacto desastroso causado pela mineração.

Sem turistas e com a pesca no Rio Doce proibida, centenas de pessoas ainda não conseguiram ser reconhecidos como atingidos pela Vale/BHP quase 5 anos depois. A situação se repete: muitos sequer têm o auxílio mensal de R$ 1500 reais. E ficaram sem fonte de renda. Especialmente os pescadores.

“Não tenho nem palavras para te falar. Regência era muito procurada por ser um lugar histórico e tranquilo. Eu estava ampliando a pousada, depois da lama acabou tudo. Os surfistas desapareceram. A maioria não tem coragem de entrar no mar”, conta Lurdes.

Com a economia local devastada, parte dos moradores dependem integralmente do auxílio emergencial para pagar todas as despesas. E recebem um valor insuficiente. Lurdes teme que o auxílio seja cortado em breve, segundo rumores. (Update: e tem razão, conforme mostramos em matéria posterior).

A água que antes era retirada do rio, passou a ser via carro pipa e poço. A Vale/BHP insiste que a qualidade da água é boa, mas os moradores não acreditam. As mineradoras tem investido fortemente em propaganda nos últimos anos para afirmar que o Rio Doce está recuperado. Estudos e as pessoas que vivem nas cidades desmentem o marketing.

“A água tá contaminada sim. Você vai lá e vê que tem minério brilhando. Eles falam que tá boa, mas mostrar mesmo o resultado eles não mostram. Sequer fazem reunião com a gente”, cobra Lurdes.

Foto: Giulio Paletta / Hardcore

Nos últimos 4 anos, Vale e BHP lucraram, juntas, cerca de R$ 162 bilhões. A Samarco, responsável pela barragem de Mariana e empresa que é 100% controlada pelas duas maiores mineradoras do mundo, foi autorizada a voltar a funcionar, o que deve ocorrer ainda em 2020.

O Rio Doce tem extensão de 879 quilômetros e suas nascentes estão em Minas, nas Serras da Mantiqueira e do Espinhaço. Dos 86.715 quilômetros quadrados de área total, 86% estão no Leste mineiro e 14% no Nordeste do Espírito Santo. A população da Bacia do Rio Doce, estimada em torno de 3,5 milhões de habitantes, está distribuída em 228 municípios, sendo 200 mineiros e 28 capixabas. Mais de 85% desses municípios têm até 20 mil habitantes.

O Rio Doce foi completamente destruído há 5 anos por Vale e BHP.

Sem água durante a pandemia ou com água contaminada e com o seu meio de vida duramente afetado, essas pessoas convivem diariamente com as provas do maior crime ambiental do Brasil. Enquanto isso, o coronavírus já matou mais de 2 mil pessoas no Espírito Santo e em Minas Gerais. Os dois estados, fora a subnotificação, registram mais de 68 mil casos até o momento.

Maurício Angelo

Jornalista investigativo especializado em mineração, Amazônia, Cerrado, Direitos Humanos e crise climática. Fundador do Observatório da Mineração. Como freelancer, publicou matérias na Mongabay, Repórter Brasil, Intercept Brasil, Pulitzer Center, Thomson Reuters Foundation, Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), Unearthed, Folha de S. Paulo, UOL, Investimentos e Direitos na Amazônia e outros. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (2019).

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