4 anos depois e contra estudos, Vale e BHP investem em propaganda para negar que o Rio Doce segue contaminado

A disputa de narrativa sobre os impactos causados pelo rompimento da barragem de Fundão em Mariana (MG), de propriedade da Vale e da BHP Billiton, começou no mesmo instante em que os 40 milhões de metros cúbicos de lama tóxica se espalharam por 600km até o litoral do Espírito Santo e da Bahia.

Desde 05 de novembro de 2015, portanto, a postura da Vale sempre foi a de colocar em descrédito tanto as primeiras análises preliminares quanto estudos mais aprofundados realizados com o passar do tempo.

Ainda em novembro de 2015, as primeiras análises mostravam que a lama despejada no Rio Doce continha a presença de partículas de metais pesados como arsênio, chumbo, alumínio, ferro, bário, cobre, boro e até mercúrio. E isso em vários pontos de coleta diferentes.

A Vale/BHP/Samarco nunca admitiu essa contaminação. Em nota na época, afirmou que “a empresa reforça que o rejeito é classificado como material inerte e não perigoso, conforme norma brasileira de código NBR 10004-04, o que significa que não apresenta riscos à saúde pública e ao meio ambiente. Proveniente do processo de beneficiamento do minério de ferro, o rejeito é composto basicamente de água, partículas de óxidos de ferro e sílica (quartzo)”.

O Rio Doce está entre os 100 maiores rios do mundo e passa por cerca de 230 municípios que retiram dele boa parte do seu abastecimento e subsistência. O impacto da falta d’água em Governador Valadares, o maior município do trajeto do Rio Doce, com 245 mil habitantes, foi brutal, imediato e sentido até hoje.

O mais completo estudo feito sobre a contaminação da água do rio, divulgado em julho de 2017 por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), confirmava uma série de impactos crônicos: o dobro de ferro, quatro vezes mais de alumínio e três vezes mais manganês do que havia no Rio Doce antes da chegada da lama tóxica da Samarco.

Redução de 40% em diversidade e grande diminuição dos tipos de plânctons disponíveis, microalgas base da cadeia alimentar. Impactos ainda desconhecidos na saúde humana que só vão surgir em quatro ou cinco anos. O excesso de manganês, por exemplo, pode causar efeitos neurológicos, entrando no sistema nervoso e acarretando sintomas parecidos com o Parkinson.

Nada disso, no entanto, tem impedido a Fundação Renova, criada pela Vale e BHP, de alardear via propaganda que o Rio Doce está plenamente recuperado. Com bilhões em caixa, a Renova tem anunciado nos principais jornais de Minas Gerais e Espírito Santo as maravilhas sobre a recuperação do Doce. Veja:

Na Gazeta, a Renova produziu um “Diários do Rio Doce” em 10 episódios. Nele, celebra os seus “feitos” em “recuperar” desde a foz de Regência, destino turístico no ES conhecido pela prática de surfe até a “regeneração” de manguezais, do habitat de reprodução das tartarugas marinhas, as “pesquisas” sobre a qualidade da água, os projetos para jovens e produtores rurais e por aí afora.

Em entrevista que fiz com Renato Neto em 2017, um dos pesquisadores da UFES responsáveis pelo estudo citado e PhD em oceanografia química pela universidade de Liverpool, na Inglaterra, o especialista manifestou preocupação com a concentração de metais encontrada, em especial o chumbo, que pode causar danos na coordenação motora e no aprendizado.

Mais: o pesquisador afirmou categoricamente que falta apoio para pesquisa, que não existe planejamento de longo prazo e, por consequência, a transparência das informações para a população fica comprometida.

“O mais monitorado do Brasil”

Segundo a Renova, o Rio Doce é hoje “o rio mais monitorado do Brasil”. De acordo com a “fundação”, são 92 pontos de acompanhamento da qualidade da água nos cursos d’água impactados em Minas Gerais e no Espírito Santo. (o rio, seus afluentes, lagoas e litoral). Isso gera “mais de 1 milhão e meio de dados” por ano, informações “confiáveis” para a recuperação da Bacia do Doce.

Contra todos os estudos prévios e todos os relatos acumulados nestes 4 anos, a Renova investe pesado para afirmar a sua narrativa. Segundo ela, o Rio Doce “está melhor do que estava antes” – fazendo coro a uma “promessa” de executivo da Vale assim que a barragem de Mariana rompeu – e a população atingida só tem a comemorar.

O único problema desse discurso é quando ele esbarra na realidade.

Bomba-relógio permanente

Um outro estudo, divulgado em julho de 2018 e feito por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) afirma que a lama da Vale/BHP é uma “bomba-relógio” com metais pesados que continua ameaçando o estuário do Rio Doce”.

Os resultados mostram que os metais pesados presentes na água significam um desastre permanente e que deve se desdobrar em impactos sistêmicos. “Alguns desses metais são tóxicos e podem se acumular em plantas e peixes, acarretando efeitos potencialmente nocivos sobre a fauna e a flora associadas a esse ecossistema”, lembram.

Os pesquisadores também alertam que é perigoso considerar apenas os patamares atuais de contaminação, que mostram “apenas” o níquel e o cromo acima dos níveis superiores permitidos pela legislação brasileira.

“No entanto, essa visão estática não acompanha a dinâmica da movimentação do material que segue em direção ao estuário periodicamente. Por exemplo, cada vez que chove, mais rejeito é depositado”, constata um dos especialistas.

Ainda é preciso considerar que os índices totais de contaminação mascaram o fato de o rejeito rico em ferro ser uma fração instável, “podendo ser solubilizado e facilitar a liberação dos metais pesados”. Em resumo: todos os estudos sérios feitos até aqui mostram que o Rio Doce está longe, muito longe de uma recuperação e que os efeitos da lama tóxica de mineração liberada são permanentes.

População não confia na água

Matéria de janeiro de 2018 na Agência Pública mostrava que a população de Valadares, por exemplo, não confia na água do Rio Doce para consumo. No auge da crise da água, em 2015, a Vale/BHP chegou a enviar caminhões pipa contaminados por querosene.

As empresas enfrentam cerca de 55 mil processos de moradores da bacia do Rio Doce em função da falta de água e a contaminação nos municípios. Até hoje, esses processos ainda tramitam no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que chegou a suspendê-los.

Matéria publicada pela Rádio Nacional há 5 dias mostra que a população de Governador Valadares tem se organizado para pedir mudanças na captação de água feita no Rio Doce. De acordo com Leonardo Castro Maia, promotor do Ministério Público, a principal demanda das cidades afetadas é buscar recursos hídricos de outras fontes.

“Hoje a água, pelo monitoramento realizado, tem condições de ser tratada. O que não quer dizer que não haja riscos, em razão dos rejeitos, para a saúde das pessoas. Riscos ainda estão sendo apurados, o estudo ainda não concluído. Agora, o fato é que a população hoje não confia nesses laudos e avaliações dos órgãos competentes. Em todos os locais da bacia que captam a água do Rio Doce existe desconfiança”, afirmou.

Todo o histórico do caso e os fatos elencados aqui mostram que essa desconfiança é absolutamente justificada.

Maurício Angelo

Jornalista investigativo especializado em mineração, Amazônia, Cerrado e conflitos socioambientais. Fundador do Observatório da Mineração. Como freelancer, publicou matérias na Mongabay, Repórter Brasil, Intercept Brasil, Pulitzer Center, Thomson Reuters Foundation, Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), Unearthed, Folha de S. Paulo, UOL, Investimentos e Direitos na Amazônia e outros. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (2019).

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