O assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips na Amazônia está repleto das digitais do bolsonarismo

O jornalista inglês Dom Phillips, 57, e o indigenista Bruno Pereira, 41, foram assassinados fazendo exatamente o que eu faço.

Após mais de uma semana do desaparecimento dos dois no Vale do Javari, oeste do Amazonas, na fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia, a investigação encontrou pertences dos dois e caminha para confirmar a identificação dos corpos.

Bruno e Dom foram executados investigando exatamente o que eu investigo como jornalista e o que este Observatório tem feito nos últimos 7 anos.

Mataram dois dos nossos, já que Bruno também é jornalista formado. Poderia perfeitamente ser eu ou algum dos amigos e colegas que se prestam a investigar o que pouca gente está disposta a investigar.

A execução de Bruno e Dom não é fato isolado, não é um episódio aleatório e está muito longe de ser uma “aventura não recomendada”, como disse Jair Bolsonaro, em desrespeito à história dos dois e em desrespeito a todos nós, jornalistas.

Pelo contrário. O assassinato de Bruno e Dom está repleto das digitais de Jair Messias Bolsonaro, da cúpula do seu governo e do bolsonarismo enquanto movimento, teoria e prática.

Bruno Pereira foi exonerado do cargo de coordenador da área de índios isolados e de recente contato da Fundação Nacional do Índio (Funai) exatamente após comandar uma operação contra o garimpo ilegal na Terra Indígena Vale do Javari, em 2019.

O trabalho de Bruno em revelar as consequências do garimpo na Amazônia incomodou o governo Bolsonaro, que decidiu retaliar o servidor com a perda do cargo que ocupava e que cumpria com competência, como mostram os fatos e o respeito que Bruno Pereira tem dos indígenas do Javari.

O presidente da Funai, Marcelo Xavier, um delegado de polícia com histórico “controverso”, Jair Bolsonaro e Sérgio Moro, na época ministro da Justiça, tem responsabilidade sobre a exoneração de Bruno Pereira.

Para o seu lugar foi nomeado Ricardo Dias Lopes, um pastor ligado à “Missão Novas Tribos do Brasil”, grupo missionário conhecido por tentar forçar a evangelização de indígenas, inclusive os isolados do Javari.

Escanteado da Funai, Bruno Pereira pediu licença não remunerada e foi atuar como assessor da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), principal organização do território.

São os líderes da Univaja que tem atuado como peça-chave na coordenação autônoma da investigação do assassinato de Bruno e Dom. Lideranças da Univaja também auxiliaram Bruno e Dom na empreitada e as mesmas lideranças, como Beto Marubo, cansaram de denunciar em Brasília os riscos que indígenas e ambientalistas vivem no Javari.

“É para proteger a Amazônia, mas vocês compram ouro de gente que tá matando os parentes na nossa terra? Vocês estão financiando a morte em todas as regiões da Amazônia”, cobrou Beto Marubo de países europeus apenas dois meses atrás, no Acampamento Terra Livre, como noticiamos aqui.

“Quem nos garante que amanhã os garimpeiros não entrem na terra deles (os indígenas isolados) e os eliminem? Nós estamos vendo isso na Amazônia acontecer com ambientalistas conhecidos, o que dirá com os isolados”, disse Marubo em entrevista exclusiva ao Observatório da Mineração que você pode assistir abaixo.

Beto Marubo detalhou a situação crítica do Javari, região com maior incidência de povos isolados do planeta e o que representa o PL 191/2020, assinado por Jair Bolsonaro, Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia, e novamente Sérgio Moro.

O PL 191, enviado ao Congresso em fevereiro de 2020, quer autorizar a mineração, o garimpo e o agronegócio em terras indígenas. A simples existência do PL já coloca pressão por todos os lados e o projeto de lei incentiva diretamente as invasões de terras indígenas na esperança da legalização do que hoje é crime.

Digitais fortes e inegáveis do bolsonarismo.

Em março de 2021 eu revelei que Jair Bolsonaro e o presidente da Funai se reuniram – fora da agenda – com um madeireiro que organizou a criação de uma cooperativa de garimpeiros na terra indígena Kayapó do Pará. A ideia é que o “modelo”, que contou com o apoio do ex-deputado Sérgio Reis, amigo de Bolsonaro, fosse expandido para várias regiões da Amazônia.

Bolsonaro e Funai incentivaram indígenas a pressionar por garimpo, pelo agronegócio e pela aprovação do PL 191. A Funai se comprometeu até mesmo a financiar visitas de comitivas de indígenas favoráveis aos empreendimentos a outras terras onde projetos ilegais, como a plantação de soja transgênica, acontecem. É o caso dos Parecis no Mato Grosso.

As digitais estão por toda parte.

Em julho de 2020, ainda no início da pandemia, outra matéria do Observatório mostrou que cinco das 10 terras indígenas mais vulneráveis à Covid-19 estão na Amazônia e 4 delas contam com registros de povos isolados. Somados, estes territórios têm quase 800 requerimentos minerários pendentes na Agência Nacional de Mineração.

A pressão de grandes e médias mineradoras, destaquei, se soma à invasão em massa de garimpeiros, que aproveitaram a pandemia para intensificar ainda mais a extração ilegal.

É o caso da TI Vale do Javari. A operação liderada por Bruno Pereira contra o garimpo ilegal foi destacada no texto, que também contou com uma entrevista com Beto Marubo.

“Já é uma região totalmente detonada pelo garimpo, o próprio leito do rio vem sendo prejudicado, sobretudo no Médio Rio Jutaí, e está chegando nas cabeceiras. Apesar dos informes que fizemos para a Funai e Ministério Público, nenhuma providência concreta foi tomada. São pelo menos 6 dragas de garimpo na região. Em momento de pandemia os garimpeiros são vetores de transmissão da doença”, alertava Marubo em julho de 2020.

Nada é por acaso e as digitais do bolsonarismo se multiplicam.

O garimpo ilegal investigado por Dom Phillips e Bruno Pereira sempre recebeu tapete vermelho do governo Bolsonaro em Brasília.

Ainda em fevereiro de 2020 eu publiquei uma matéria detalhada mostrando como o lobby da mineração e do garimpo é recebido com prioridade dentro do Ministério de Minas e Energia.

Em janeiro de 2021 revelei a proximidade de Hamilton Mourão, vice-presidente, com empresários do garimpo na Amazônia. O principal desses empresários, dono da FD Gold, foi denunciado pelo Ministério Público em agosto de 2021 por comercializar toneladas de ouro ilegal.

Em entrevista exclusiva, Elton Rohnelt, ex-deputado federal nos anos 90, empresário do garimpo em Roraima, amigo de Jair Bolsonaro e hoje líder de lobistas em Brasília me disse que “o governo pode fazer o que bem entender” sobre mineração em terra indígena.

Mas mesmo Elton Rohnelt tem uma condição para apoiar o PL 191/2020: não assassinar indígenas e respeitar os povos que vivem em isolamento, como os do Javari.

Não foi essa a preocupação da Funai de Bolsonaro ao exonerar Bruno Pereira após operação contra o garimpo ilegal. E não está sendo essa a postura da Funai ao inventar mentiras sobre a suposta “falta de autorização pedida” por Bruno para entrar na TI do Javari – o indigenista comunicou a Funai – e a viagem de Bruno e Dom seguiram fora dos limites da TI. Tudo devidamente desmentido pela Univaja.

As digitais do bolsonarismo se espalham, diretas e indiretas, antes do assassinato de Bruno e Dom, durante a viagem interrompida dos dois e agora, após o crime consumado.

Bruno e Dom morreram por ousar contar a realidade da Amazônia sob Bolsonaro. Uma Amazônia conflagrada pelo garimpo, grilagem, boi, bala, bíblia, invasões, tráfico de drogas, trabalho escravo, pesca, madeira, por redes criminosas internacionais. Fortalecidas com a anuência de Jair Bolsonaro e do seu governo.

Nós sabemos que o trabalho de jornalista investigativo é arriscado. E se tornou muito, muito mais desde que Bolsonaro assumiu o Planalto tendo ligações diretas com empresários do garimpo, da madeira, da grilagem. Com milicianos. Criminosos recebidos com frequência em Brasília. E até transportados por aviões da FAB, caso dos garimpeiros ilegais de Itaituba.

Ou nos vários episódios de vazamento de informações de operações em garimpos de dentro do próprio governo, atrapalhando a fiscalização e os servidores de carreira, como Bruno Pereira. Vazamentos que detalhei para o UOL em julho de 2021.

As digitais do bolsonarismo acompanham as digitais do crime organizado.

Poderia perfeitamente ser eu o assassinado. Eu ou tantos colegas que cobrem a área socioambiental, investigando as mesmas questões que Bruno e Dom e, não raro, falando com as mesmas fontes.

Fontes – lideranças indígenas, quilombolas, ribeirinhas – que relatam incessantemente as ameaças que passaram a conviver, os assassinatos, invasões, perseguições. Antes de Bruno e Dom tombaram Paulinho Guajajara, Ari Eu Wau Wau, Maxciel dos Santos, colega de Bruno no Javari e na Funai, assassinado com um tiro na cara em plena cidade de Atalaia do Norte, na frente da família, Francisco Tukano, Emyra Waiãpi, José Gomes, Márcia Nunes Lisboa e sua filha, Joene.

Guardiões indígenas, ambientalistas, lideranças comunitárias. O Brasil se tornou um inferno para ambientalistas sob a gestão de Bolsonaro. Somos o quarto país mais perigoso para ambientalistas no mundo, com dezenas de assassinatos nos últimos anos.

A mineração, centro deste Observatório, é o setor responsável pelo maior número de mortes de ativistas no planeta, junto com o agronegócio. A América Latina é a região mais letal.

Nada impede que eu seja o próximo a morrer. Não quero ser “mártir” de nada, não quero ser “herói”. Ninguém quer. Sempre tive plena consciência das limitações do jornalismo. Quero apenas continuar fazendo o meu trabalho sem ser assassinado por isso.

Muita gente, como Bruno e Dom, não teve esse direito.

Esse governo genocida, corrupto, fascista e golpista tem ódio da democracia, do povo e da imprensa. E persegue a mídia desde sempre. Além do risco de morte, existe o assédio diário, a perseguição, as ameaças, a turba online incitada pelo “Gabinete do Ódio” e por inúmeros bolsonaristas, a intimidação e o assédio do judiciário. A lista é infinita.

Bruno e Dom morreram fazendo o que eu faço. Investigando o que eu investigo. E nós gostamos de dizer que “a resposta para isso é mais jornalismo”. É verdade. Mas não só. Não pode ser apenas “mais jornalismo”. Muita coisa precisa mudar nesse país. E rápido.

Jornalismo é importante, mas está muito longe de representar “tudo”. E não pode e não deve arcar com esse fardo sozinho. Até porque quem vai para a linha de frente somos nós, não os patrões. Quem se arrisca diariamente é o jornalista, não os barões da mídia. Você, leitor, lembre-se disso.

E simplesmente não há como fazer jornalismo investigativo sem incomodar poderosos, criminosos, corruptos, lobistas, políticos, empresas gigantescas, violadores de direitos humanos, juízes, milicianos, militares, enfim, quem quer que seja. Não há.

Mesmo que Bolsonaro e sua gangue não continuem no poder, o bolsonarismo não irá desaparecer na virada do ano. As redes criminosas fortalecidas pelo bolsonarismo não sumirão. As consequências são duradouras. Vamos conviver por muito tempo com elas.

Eu vou continuar fazendo o meu trabalho. E tenho certeza que muitos colegas também. Bruno e Dom jamais serão esquecidos. Como outros que tombaram antes. Mas é inadmissível que as coisas continuem como estão. Na imprensa e fora dela. Que as famílias encontrem conforto nesse momento duríssimo.

As digitais do bolsonarismo não irão parar o jornalismo investigativo sério, crítico e consciente dos seus problemas estruturais. Mas o assassinato de Bruno e Dom é muito mais do que um alerta.

É o capítulo mais recente de uma série de ataques coordenados que tem a participação direta da extrema-direita brasileira e mundial.

Valorizar, respeitar, financiar e proteger os jornalistas investigativos é o mínimo que a nossa sociedade precisa para começar a reconstruir o que sobrará dos escombros democráticos pós-bolsonarismo.

Há muitíssimo a fazer. E não existem soluções prontas, fáceis e imediatas para resolver problemas graves, profundos e complexos causados pela corrosão quase total de tudo que faz – fazia? – o Brasil valer a pena para gente como eu, como os meus colegas. Para gente como Bruno e Dom. Que pagaram com a vida.

Que saibamos construir algo muito melhor do que isto que aí está. Com urgência e sabedoria. O que resta do Brasil que a gente quer depende diretamente disso.

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