Vale diz que “jamais esquecerá” Brumadinho e que será uma empresa mais “segura e previsível”. Discurso esbarra na realidade.

Eduardo Bartolomeo, funcionário de carreira da Vale que assumiu o cargo de diretor-presidente após Fabio Schvartsman ser afastado temporariamente por força da Polícia Federal e do MPF, afirmou nesta sexta (10), durante pronunciamento para investidores, que a Vale “tem compromisso total” com a reparação e com as comunidades atingidas.

“As três palavras que vão pontuar as prioridades serão: Segurança, Pessoas e Reparação. Jamais esqueceremos Brumadinho. Nosso legado será transformar a Vale numa empresa de mineração mais segura e, portanto, mais previsível”, declarou Bartolomeo.

Você já ouviu esse discurso antes. Na verdade, uma versão ainda pior. O problema dos executivos com discurso empolado de media training da Vale é um só: a realidade. Quem não lembra que após o maior crime ambiental da história do país e o assassinato de 19 pessoas, a Vale disse que adotaria o lema “Mariana nunca mais”? Quem não lembra que Fabio Schvartsman afirmou em 2018 que o estado das barragens da Vale era “impecável”, que pediu “uma revisão das condições das estruturas e o resultado foi bastante positivo”?

O resultado do “estado impressionante” das barragens da Vale foi um novo rompimento em Brumadinho que matou mais de 230 pessoas até o momento e outras 32 barragens interditadas com risco iminente de rompimento em Minas Gerais. Trinta e duas barragens interditadas e dois rompimentos. Esse é o modelo de atuação seguro, responsável, previsível e eficiente da Vale, já no bojo do lema “Mariana Nunca Mais”. Essa semana a justiça suspendeu novamente as operações da mina de Brucutu, a maior da Vale em MG.

“Novo pacto com a sociedade”

A desfaçatez do discurso oficial da empresa tem sido denunciado aqui desde 2015. Ignorando todo o histórico, que não é pouco, Bartolomeo anunciou um “novo pacto com a sociedade”.

Segundo o diretor-presidente tampão, a Vale agora dará prioridade para “a segurança e excelência operacional”, além do lucro e da pressão de produção sobre outras bases da empresa – sobretudo no Pará – para compensar as perdas em Minas Gerais. Tudo isso escondido em palavras-chave para os ouvidos do mercado: “turnaround dos Metais Básicos, forte disciplina de alocação de capital e maximização do Flight-to-quality no Minério de Ferro”. Afinal, até aqui o “prejuízo” da Vale foi de R$6,4 bilhões.

Bartolomeo também anunciou a criação de duas diretorias: a
Diretoria Especial de Reparação e Desenvolvimento e a Diretoria de Segurança e Excelência Operacional, que focará na “gestão dos riscos” com reporte direto à presidência e ao Conselho de Administração. Aqui temos uma tentativa de atrelar a ciência da diretoria a fatos futuros e não passados. Uma estratégia jurídica para escapar das punições, inclusive criminais, que tem funcionado muito bem até o momento, obrigado.

Segundo Bartolomeo, duas investigações internas e “independentes” estão em andamento: “Vamos apoiar e dar transparência à investigação sobre as causas da tragédia. As premissas (das novas diretorias) são flexibilidade e agilidade, com reporte direto a mim. O objetivo é garantir que todas as ações sejam executadas dentro dos prazos acordados”, disse.

É de se questionar se Bartolomeo se refere à mesma “transparência” e “ações dentro do prazo” como aquela que a Vale usa para pressionar prefeitos atingidos pelo rompimento em Mariana a abrir mão de ações judiciais no Brasil e no exterior, sem pagar a compensação que já havia sido acordada 3 anos depois do crime, como mostramos aqui. Será esse o “compromisso total” com a reparação e as comunidades atingidas?

Ou será a mesma transparência que a Vale usa para se reunir às escondidas com representantes da Secretaria de Meio Ambiente de MG e ditar regras incorporadas em leis que favoreceram a atuação da empresa?

Ou ainda é possível esperar que teremos a mesma “segurança” e “previsibilidade” que fizeram a Vale ignorar estudos de um próprio funcionário da empresa que mostrou que a barragem de Brumadinho tinha um risco considerável de romper ainda em 2010? Ou a mesma segurança e compromisso com a transparência que fez com que a Vale conseguisse revalidação automática de 17 licenças de operação para mina em Ouro Preto interditada pela justiça?

Contra o discurso oficial oportunamente ignorado, existe essa coisa inconveniente chamada história recente da empresa revelada em matérias investigativas e pelos crimes genocidas que a Vale causou. E não há “media training” suficiente capaz de esconder uma negligência tão profunda em conluio com os mesmos políticos que a empresa financia.

Maurício Angelo

Jornalista investigativo especializado em mineração, Amazônia, Cerrado, Direitos Humanos e crise climática. Fundador do Observatório da Mineração. Como freelancer, publicou matérias na Mongabay, Repórter Brasil, Intercept Brasil, Pulitzer Center, Thomson Reuters Foundation, Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), Unearthed, Folha de S. Paulo, UOL, Investimentos e Direitos na Amazônia e outros. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (2019).

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