“A cidade morreu”, diz prefeito de Barão de Cocais. 6 meses atrás, a Vale era a salvação.

Esvaziada e tomada pela tensão, a situação que vive Barão de Cocais hoje, cidade a 100km de Belo Horizonte, é mais grave porém próxima a tantas outras cidades em Minas que viram, após Brumadinho, barragens da Vale ser interditadas, pessoas saírem de suas casas por tempo indeterminado, comércio, serviços e turismo fechados.

São 32 barragens interditadas atualmente. Além de Cocais, Nova Lima, Ouro Preto, Itabirito, Itabira, Rio Piracicaba e Mariana, entre outras, estão em estado de alerta.

Segundo a própria Vale, a barragem Sul Superior da mina de Gongo Soco, em Cocais, pode romper a qualquer momento desde ontem, 19 de maio até 25, sábado.

Em reunião ontem entre Vale, MPMG, Agência Nacional de Mineração, Secretaria de Meio Ambiente de MG, AGU, Defesa Civil e outros, ficou determinado: a paralisação total do tráfego de trens de carga na região, que afeta também a ferrovia Vitória/Minas; possível contratação da empresa Rizzo International para realizar serviços de auditoria geotécnica independente para o Ministério Público e demais órgãos sobre a situação da barragem; por fim, a “necessidade de comunicação sempre imediata das informações sobre a movimentação do talude, segurança da barragem, monitoramento e ações emergenciais e que tais informações não sejam fragmentadas o que pode dificultar ou impedir a atuação dos órgãos envolvidos”.

Traduzindo: a barragem pode romper a qualquer momento, a Vale não tem qualquer controle sobre o comprometimento da estrutura e as instituições – com razão – não confiam na capacidade da empresa de cumprir com suas obrigações e fornecer informações confiáveis. Inclusive, a Vale omitiu o risco real da barragem Sul Superior e sequer produziu o estudo que já deveria ter feito após decisão judicial. Para pesquisadores, o estrago pode ser ainda maior do que o previsto.

Tudo pode acontecer e salve-se quem puder é a melhor resposta que a mineradora tem oferecido à população. Segundo o secretário da Semad, o risco da barragem romper é de no mínimo 15%, de acordo com “auditoria externa”. Qualquer intervenção é tecnicamente desaconselhável. Ou seja: resta esperar.

De salvação a desastre

Em entrevista ao jornal O Tempo, o prefeito de Barão de Cocais, Décio Santos (PV), afirmou, consternado, que “a cidade morreu”. Abre aspas:

Vou fazer um desabafo. Graças a Deus não tivemos um rompimento, não tivemos vítimas. Mas estamos em uma situação bem parecida com a de Brumadinho. A cidade está sofrendo muito. Pelo fato de a gente não ter tido rompimento, não ter tido vítimas, o poder público não olha muito pra gente. Não tivemos nem uma visita do governador aqui. Faço um apelo ao governador Zema que venha nos visitar. Precisamos de um olhar diferente para o nosso município. O que estamos vivendo aqui é muito difícil. Temos 32 mil pessoas vivendo em situações de incerteza. A cidade morreu. A gente não consegue negociar um imóvel na cidade. A própria Vale, tem que dar uma ajuda. Porque, realmente, o que a gente está vivendo é muito pesado. As pessoas estão adoecendo no município, é estresse, tive pessoas que tentaram suicídio no município já.

Apenas 6 meses atrás, no entanto, o tom de Décio Santos sobre os empreendimentos da Vale na cidade era bem diferente. Em 30 de novembro, uma nota no site da prefeitura mostra o prefeito e vereadores comemorando efusivamente a aprovação da licença ambiental para instalação e operação da Mina da Cava da Divisa, da Vale.

Segundo o prefeito, com a liberação “a cidade agora possui uma perspectiva de investimento crescente pelos próximos 30 anos”.

A nota fala que “a aprovação foi bastante comemorada pelos parlamentares, que ressaltaram o empenho de todos para que o licenciamento fosse finalmente alcançado”. Ou seja: há aqui uma postura clara de assumir sem nenhum pudor o lobby e a pressão – o “empenho” – que fizeram para que o licenciamento fosse aprovado. Para os vereadores, o licenciamento “é um passo enorme na direção da retomada do desenvolvimento econômico e social da nossa cidade”.

Em vídeo, Décio vai além e agradece a todos que “oraram pela aprovação” do empreendimento. “Graças a Deus”, diz ele, isso foi “fruto de muito trabalho, muita luta”. A licença era um passo muito importante para que “a cidade de Barão de Cocais comece a melhorar gradativamente”.

O caso trágico de Barão de Cocais é um lembrete direto para políticos que preferem ignorar completamente os riscos da mineração e atuar como lobistas de mineradoras, chegando a celebrar sem qualquer constrangimento o “ganho econômico” que estes projetos supostamente trazem.

Em apenas 6 meses, Décio Santos viu a sua “fé” bater de frente com a negligência em série de empresas que colocam a vida das pessoas e o meio ambiente em último lugar. E que contam com muitos cúmplices nessa história.

Maurício Angelo

Jornalista investigativo especializado em mineração, Amazônia, Cerrado e conflitos socioambientais. Fundador do Observatório da Mineração. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (2019).

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