Investidores que controlam R$ 76 trilhões cobram a Vale e outras mineradoras a garantir a segurança de barragens

Você leu certo: R$ 76 trilhões na cotação de hoje (com cada dólar valendo R$ 5,85). Esse é o dinheiro (13 trilhões de dólares) que cerca de 110 fundos de investimento têm em mãos para pressionar mineradoras a melhorar a segurança das suas barragens.

Liderado pelo fundo de pensão The Church of England, que administra o dinheiro dos trabalhadores e clérigos da igreja britânica, uma iniciativa perguntou a 726 mineradoras sobre as barragens que possuem. Cerca de 40% respondeu, incluindo 37 das 50 maiores do mundo.

A promessa é que até o fim deste semestre seja lançado um código de melhores práticas com um padrão internacional para armazenamento de rejeitos. O resultado até aqui é a criação de um banco de dados global com informações sobre 1.939 barragens.

A Vale, responsável por dois rompimentos de barragens em pouco mais de 3 anos e que matou quase 300 pessoas em Mariana e Brumadinho, é um dos principais alvos.

Embora pequeno quando comparado com os seus colegas, a Church of England se desfez no fim de 2019 das ações que tinha na Vale, cerca de R$ 73 milhões (12,5 mi de dólares). Quando se junta aos outros fundos de investimento, no entanto, o poder de pressão é do tamanho das cifras impressionantes que acumulam. Uma reunião de fundos suecos também está por trás de tudo.

Um clube seleto da verdadeira elite mundial que, direta ou indiretamente, tenta mostrar que as mineradoras não podem fazer o que bem entendem o tempo todo.

Quanto disso é verdadeiro? Quanto disso é capaz de realmente mudar alguma coisa? Até que ponto essa pressão vai? É possível para o público de pessoas comuns atingidas pela mineração – todos nós – acreditar que os trilionários do planeta estão dispostos a comprar briga com algumas das maiores empresas que o capitalismo foi capaz de produzir e que eles mesmos financiam?

Tenho ótimos motivos para desconfiar que não. A tendência é que não passe de meia dúzia de regras mantidas em um documento hermético em um quanto qualquer da internet que não tem qualquer relação com o mundo real.

As dezenas de barragens da Vale com problemas concretos, atividades suspensas e risco de rompimento imediato são um bom exemplo. As inúmeras violações socioambientais que as grandes mineradoras colecionam no Brasil e fora do país também.

Quando o marketing não é suficiente, os crimes se acumulam, pessoas morrem e o meio ambiente é destruído em escala industrial, é difícil fugir dos fatos. Embora as empresas sempre tentem. Ganhar o verniz de “verde” ou “sustentável” é sempre um bom negócio. Mineração com responsabilidade? Compra quem quer.

Ainda assim, acredito que é preciso dar espaço para que os investidores se pronunciem. No caso da Church of England, uma comitiva de atingidos de Minas Gerais visitou Londres em 2019 para contar diretamente aos responsáveis o que a Vale causou em Brumadinho e Mariana. Tocados, resolveram fazer algo. E uma visita deles ao Brasil, prevista para 2020, está temporariamente suspensa por causa do coronavírus. Representantes do fundo também se reuniram com a Vale em Londres.

Na entrevista abaixo, concedida ao Observatório por email, Adam Matthews, diretor de Ética e Engajamento da Church of England e um dos responsáveis pela iniciativa que cobra segurança em barragens, se esquivou dos pontos mais polêmicos.

Matthews não respondeu porque a Church of England retirou a participação na Vale mas mantém investimento em outras grandes mineradoras que colecionam violações de direitos, como a inglesa Anglo American, por exemplo.  O fundo também não revelou em quantas e quais mineradoras a Church of England investe atualmente e o valor aplicado em cada uma.

Apesar disso, é importante ver que uma mobilização desse tamanho está acontecendo e o que pensam as pessoas que colocam trilhões em empresas que precisam ser cobradas por toda a responsabilidade que possuem e os danos socioambientais que causam. Confira a entrevista.

Observatório da Mineração – Após dois rompimentos de barragens em menos de 4 anos, que mataram quase 300 pessoas, a Church Of England retirou os seus investimentos na Vale e liderou uma iniciativa para a criação de um banco de dados global com informações sobre quase 2.000 barragens. Como vocês avaliam o nível de comprometimento com segurança e respeito aos direitos humanos das mineradoras que responderam ao pedido da Church of England até aqui?

Adam Matthews – O desastre de Brumadinho mudou o setor de mineração para sempre e agora existe uma maior compreensão dos riscos para as pessoas e o meio ambiente que as barragens de rejeitos trazem.

Fomos encorajados pela taxa geral de resposta de muitas das maiores empresas do mundo. No entanto, nem todos responderam, e continuamos a nos envolver com aqueles que não o fizeram.

Apesar disso, é claro que essa questão continua sendo uma prioridade para os investidores e existe um compromisso de garantir que resolvamos isso. Permaneceremos com as empresas até termos confiança em um novo padrão e um sistema global que garanta a segurança dos trabalhadores, das comunidades e do meio ambiente.

Observatório da Mineração – Como a Church of England espera que a iniciativa sobre as barragens contribua para uma gestão mais confiável sobre essas estruturas? O guia de boas práticas para as empresas será publicado quando? Quem foi responsável pela elaboração?

Adam Matthews – A Iniciativa de Mineração e Rejeitos, criada pelo Conselho de Pensões da Igreja da Inglaterra e outros investidores importantes, apela a um novo padrão global. Esperamos anunciar o guia de boas práticas nos próximos meses. Temos agora um maior conhecimento sobre quais empresas possuem barragens de rejeitos e quais não.

Também fizemos uma chamada para um hub global de monitoramento independente 24 horas por dia, 7 dias por semana, capaz de rastrear barragens individuais para garantir segurança e transparência. Continuamos trabalhando com a indústria e outros investidores até termos confiança de que um desastre como Brumadinho não acontecerá novamente.

Observatório da Mineração – No caso da Vale, tanto em Brumadinho quanto em Mariana, investigações provaram que a diretoria da empresa sabia sobre os problemas em série que as suas barragens tinham e optou por não fazer nenhum tipo de intervenção mais séria. Pelo contrário, pressionava empresas de auditoria, como a TUV SUD, contratada para serviços “internos e externos”, a certificar a estabilidade de barragens comprometidas. Diante disso, é possível confiar nas informações prestadas pela Vale e os compromissos que a mineradora diz ter assumido?

Adam Matthews – As preocupações com as informações fornecidas pelas empresas sublinham porque é tão importante a divulgação independente de barragens de rejeitos, a existência de um padrão global para gerenciar riscos e a existência de um monitoramento independente para identificar e alertar quando surgem problemas.

Nossa expectativa é que essas mudanças, combinadas com os relatórios das próprias empresas, levem a uma maior confiança no gerenciamento de rejeitos. Ainda há muito a ser feito.

Observatório da Mineração – A Church of England retirou os investimentos na Vale, mas manteve em outras mineradoras, correto? Empresas como a Anglo American, por exemplo, inglesa, tem um vasto histórico de violações socioambientais, intimidação a moradores, lobby, etc. A Church of England não considera rever os seus investimentos nestas outras mineradoras?

Adam Matthews – Correto – excluímos a Vale e não podemos mais investir na Vale até ter certeza de que nossas preocupações foram levadas em conta. Revisamos continuamente nossas participações de acordo com nossas políticas éticas – queremos ver as melhores práticas em todo o setor e usar o envolvimento com as empresas nas quais investimos como parte de nosso monitoramento de longo prazo.

Observatório da Mineração – Uma comitiva da Church of England e de outros fundos de investimento havia marcado uma viagem ao Brasil para conhecer melhor a realidade e conversar com os atingidos, que já estiveram na Inglaterra. Vocês irão remarcar essa viagem em função do coronavírus? Há uma nova previsão? Como os relatos das pessoas são levados em conta na prática na atuação de vocês?

Adam Matthews – Sim, pretendemos fazê-lo. Viajar neste momento é difícil e esperamos que isso isso aconteça em um futuro próximo. Nos beneficiamos imensamente e apreciamos os membros das comunidades que vieram à Europa para falar conosco e com outros investidores.

Estamos mais bem informados por causa disso e temos uma compreensão mais profunda das consequências quando as coisas dão errado neste setor. A mineração, quando administrada e gerenciada de forma adequada, pode ser uma fonte real de desenvolvimento econômico.

Observatório da Mineração – Sobre o coronavírus, a Vale tem anunciado diversas ações em parceria com o governo brasileiro e governos locais, que incluem a doações de milhões de testes rápidos, investimento em hospitais, equipamentos, etc. No entanto, a mineradora não paralisou as suas atividades, dois funcionários da Vale já morreram por Covid-19 no Pará, e os trabalhadores seguem aglomerados em suas minas. A situação não é muito diferente em diversas outras mineradoras que atuam no Brasil. Isso não é contraditório da parte das empresas? Como vocês avaliam as mineradoras aproveitarem a situação para fazer um marketing por doações enquanto os seus próprios funcionários estão morrendo por coronavírus?

Adam Matthews – Cabe a todas as empresas em todos os setores garantir que tenham práticas que levem em consideração a saúde e a segurança de seus funcionários e das comunidades em que operam. Temos apoiado publicamente empresas que demonstraram boas práticas e fomos críticos nos casos em que vimos práticas inadequadas. Continuaremos a nos envolver com todas as empresas em que investimos.

Observatório da Mineração – Além dos problemas causados por barragens, a mineração causa inúmeros problemas socioambientais, expulsa pessoas de suas casas em todo o mundo, polui o meio ambiente de diversas formas, causa milhares de acidentes de trabalho fatais, contribui decisivamente para a crise climática e detém um poder econômico e político incalculável. Na visão de vocês, é possível uma mineração “sustentável” que respeite o meio ambiente, as comunidades onde atuam e distribua riqueza? Como garantir que as empresas melhorem a sua atuação em diversas frentes? Os grandes fundos de investimento que vocês estão associados estão realmente dispostos a pressionar para que as empresas cheguem até lá?

Adam Matthews – Não investiríamos nesse setor se não pensássemos que há uma maneira de servir ao bem da sociedade. A mineração produz muitos recursos para a vida moderna e, para apoiar a transição para uma economia de baixo carbono, é essencial que atue da maneira mais segura com o mínimo de impacto ambiental.

Através de nosso engajamento, vimos boas práticas, mas também reconhecemos que quando algo dá errado, pode ser devastador. Usamos nosso papel como investidores para promover mudanças e acreditamos que o setor pode apoiar o mundo e a transição para uma economia de baixo carbono.

Maurício Angelo

Jornalista investigativo especializado em mineração, Amazônia, Cerrado e conflitos socioambientais. Fundador do Observatório da Mineração. Como freelancer, publicou matérias na Mongabay, Repórter Brasil, Intercept Brasil, Pulitzer Center, Thomson Reuters Foundation, Folha de S. Paulo, UOL, Investimentos e Direitos na Amazônia e outros. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (2019).

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