Em Bento Rodrigues, a solidariedade não é um capricho

Cheguei há cerca de uma hora e meia em Belo Horizonte, bastante cansado. Amanhã tento escrever sobre o que presenciei por lá, a muita boa vontade dos voluntários sendo, a todo o tempo, desafiada pela descomunal incompetência da prefeitura de Mariana e pela permanente intervenção da Samarco naquilo que os representantes classificam como “apoio humanitário”.

Vivi para ver a prefeitura de Mariana escalando, para cadastrar as vítimas, “voluntários” uniformizados da FIEMG e da Samarco. Não, não duvido do profissionalismo das assistentes sociais da FIEMG. O que me assustou foi o simbolismo. As vítimas não foram atendidas pelo poder público, mas por prepostos uniformizados de seus algozes. Havia também voluntários, digamos,”civis”, e a eles me juntei.

Estive com os abrigados, nos hotéis, inventariando os bens destruídos pelo mar de lama. Histórias de vidas inteiras soterradas pela estupidez do capital, mas, também, de muito heroísmo.

Para entender o povo de Bento Rodrigues, é necessário saber que, para eles, a solidariedade não é um capricho, uma escolha, um discurso. Solidariedade no Bento era necessidade, instinto de sobrevivência, algo sem o que eles não teriam insistido em viver ali por tanto tempo. O poder público chegava ali, apenas, em migalhas. O poste de luz bruxuleante, a escola algo precária, a água que faltava sempre. Não havia muitas opções de emprego. Não havia muito dinheiro circulando.

O que os manteve ali, vivos, por gerações, foi a prática de cuidarem uns dos outros. O membro da comunidade doente e incapacitado para o trabalho não perdia o teto, o sustento, a comida; a jovem que engravidava cedo contava com uma rede de apoio para seguir trabalhando ou estudando, mesmo com dificuldades; os donativos que os mais pobres recebiam, às vezes individualmente, por ocasião do natal ou de enchentes, por exemplo, eram divididos por todos, de acordo com a necessidade que tinham.

Essa solidariedade, a Samarco não soterrou. Com a demora da chegada dos bombeiros e da polícia, coube aos homens e mulheres jovens carregar os velhos, crianças, feridos e até animais domésticos para fora da lama. Para tanto, mergulharam suas mãos no fundo dos detritos fétidos, e retiraram de lá, com vida, muitos dos seus, subindo com eles nas costas para o cume dos morros não alcançados pelos 30 metros de lama. E os seus, eram, no caso, todos eles, qualquer um deles. Mesmo hoje, continuam sendo.

Foto: Bruno Bou/UNE

Maurício Angelo

Jornalista investigativo especializado em mineração, Amazônia, Cerrado e conflitos socioambientais. Fundador do Observatório da Mineração. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (2019).

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