O legado de Augusto e André Ruschi: mineração, contradições e história

“Espero que o Brasil não continue a perseguir seus sábios e a celebrar suas mediocridades. As mediocridades detestam a ciência e os interesses econômicos estão destruindo o valor e a riqueza do Brasil”

Segundo o historiador Warren Dean em seu livro “A Ferro e Fogo”, esta teria sido a sugestão de resposta que Augusto Ruschi deveria dar ao final de um longo e extenuante processo movido pelo governo do Espírito Santo contra Ruschi nos anos 70. O governo queria destruir uma reserva ecológica para produzir palmito e Ruschi, claro, mantê-la.

Um exemplo claro sobre a dura vida de quem se presta a fazer ciência e defender o meio ambiente no Brasil, especialmente em tempos de governos autoritários, uma constante em nossa história – campo de batalha permanente.

Acredito que uma boa forma de começar 2021 neste Observatório é falar sobre o legado de Augusto e André Ruschi, dois dos maiores ambientalistas que o Brasil já teve, capixabas, com trabalhos significativos desenvolvidos e que também precisaram enfrentar a mineradora Vale em diferentes momentos.

Augusto Ruschi e seu filho André oferecem uma boa perspectiva para o que vivemos ontem, hoje e amanhã, incluindo suas contradições.

Se “ecologia sem luta de classes é jardinagem”, como brilhantemente disse Chico Mendes, Augusto Ruschi guarda em sua própria trajetória pontos delicados e típicos do seu tempo.

Essas contradições são bastante detalhadas na tese de doutorado “A militância conservacionista de Augusto Ruschi – Práticas científicas e estratégias políticas na construção da Biologia e da Conservação da Natureza no Brasil (1937-1986)” de Alyne dos Santos Gonçalves, publicado em 2018 pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

A tese oferece um panorama necessário não só sobre Ruschi mas sobre a história do conservacionismo no Brasil, a falta de questionamento ao modelo capitalista, o esvaziamento do debate em prol da criação de áreas protegidas e, ao mesmo tempo, as interseções e eventuais conflitos entre os interesses empresariais e a militância ambiental de figuras como Ruschi e vários dos seus colegas.

(Augusto Ruschi em Santa Teresa, ES, 16.01.1986. Foto de Rogério Carneiro/Folhapress)

Disputa com a Vale desde os anos 70

Autor de mais de 20 livros e 450 artigos científicos importantes, um dos primeiros a discutir os efeitos danosos dos agrotóxicos no meio ambiente (ainda no fim dos anos 40!), responsável por várias reservas ecológicas, museus e instituições ainda na ativa, profundo conhecedor da Mata Atlântica, Augusto Ruschi é um dos maiores cientistas brasileiros.

Warren Dean narra no capítulo “Desenvolvimentos Insustentáveis” de “A Ferro e Fogo” que Augusto Ruschi empreendeu, no início dos anos 70, campanha contra a mineradora Vale do Rio Doce, que havia reativado a ferrovia de bitola larga entre as jazidas de ferro de Minas Gerais e um porto construído no litoral norte de Vitória. Ferrovia central para a Vale, diga-se.

A empresa possuía, no município de Linhares, próximo ao Parque Estadual de Sooretama (um dos mais importantes do Brasil ainda hoje), uma reserva florestal, que pretendia explorar para a fabricação de dormentes que alimentariam a ferrovia. A Vale tentou, na época, persuadir o governador do Espírito Santo a trocar Sooretama e as outras quatro reservas estaduais por…um terreno no centro de Vitória.

A Vale também queria desapropriar (junto com a Aracruz Celulose, depois Fibria, atual Suzano), diversas reservas do ES para a exploração econômica. Ruschi, por articulação política e na imprensa – via o seu amigo Rubem Braga, por exemplo – conseguiu barrar muitos desses avanços.

A tese de Alyne Gonçalves vai a fundo nessas questões e mostra os detalhes dessa disputa, muito mais complexa do que supõe, caminhando sempre numa linha fina bastante sensível entre a necessidade de protagonismo – inclusive na criação de diversas entidades na época – o questionamento de interesses e, por outro lado, o financiamento que algumas empresas davam para pesquisas científicas. O próprio Ruschi foi beneficiário disto em algumas ocasiões.

Diz Gonçalves:

“Ruschi não parecia se intimidar com o poder político e econômico de ambas as multinacionais (Vale e Aracruz), denunciando-as na imprensa e junto às autoridades competentes toda vez que julgava que suas atividades causariam danos ambientais.

Entretanto, é importante cotejar as informações sobre personagens históricos, buscando devolvê-los ao seu tempo e contexto de inserção sociopolítica e buscando descontruir as perspectivas unilaterais dos processos históricos, sob pena de criarmos mitos modernos de super-heróis e heroínas. Certamente, a postura crítica assumida por Ruschi contra essas empresas não deve ser compreendida como uma crítica ou oposição à empresa poluidora em si mesma”.

Ao mesmo tempo em que denunciava alguns avanços, mantinha relações de amizade e compadrio com outras empresas, incluindo mineradoras, como a Trindade (Samitri).

Exemplifica a pesquisadora:

“Algumas pesquisas de Ruschi sobre controle biológico da esquistossomose e sobre beija-flores no norte do Brasil foram financiadas e/ou apoiadas por uma empresa que bem poderia ser taxada de “poluidora”, a Indústria e Comércio de Minérios S.A. (ICOMI), mineradora fundada pelo empresário brasileiro Augusto Azevedo Antunes nos anos 1940, cujo foco era a exploração de jazidas de minério de manganês na Serra do Navio, Amapá. Aliás, era comum na primeira metade do século XX que grandes empresários financiassem pesquisas científicas no Brasil – fosse por meio de práticas filantrópicas ou por meio do mecenato”.

100 anos de impactos

Seguindo esse legado do pai repleto de contradições, mas se deparando com um desastre sem precedentes, André Ruschi foi uma das primeiras, mais respeitadas e contundentes vozes sobre o rompimento da barragem de Mariana, em novembro de 2015. André Ruschi, que morreu cerca de 5 meses após o rompimento, deixou o que ainda é uma das principais análises sobre o caso.

Três dias depois do rompimento, em 08 de novembro, Ruschi postou esse texto que reproduzo na íntegra de seu Facebook. Com o conhecimento que pouquíssimos tem sobre a área do Rio Doce e do Oceano Atlântico no Espírito Santo, Ruschi alertava que que os impactos durariam mais de 100 anos, defendeu o fechamento da Samarco e explicou como os rejeitos se espalhariam por áreas imensas em terra, no rio e no mar.

Ruschi, assim, já respondia a negacionistas como Paulo Rosman, professor de Engenharia Costeira da COPPE/UFRJ e autor de um estudo encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente, que afirmou também em novembro de 2015 que o Rio Doce “iria ressuscitar em 5 meses”, que “os efeitos no mar serão “desprezíveis” e que “o material se espalhará por no máximo 9 km e que em poucos dias a coloração barrenta deve se dissipar”.

Em agosto de 2017, quando publiquei essa entrevista com Renato Neto, pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) responsável pelo estudo mais completo sobre os impactos dos rejeitos publicado até então, ficava bem claro que Ruschi estava certo e Rosman equivocado.

Ainda hoje, mais de 5 anos depois, a realidade sobre os impactos no ecossistema e para a saúde das pessoas é centro de uma batalha travada pelas mineradoras Vale, Samarco e BHP e a Fundação Renova, que investem em propaganda para afirmar que “está tudo bem”. Embora estudos sérios digam exatamente o contrário.

Muito longe de um fim – André Ruschi falou em 100 anos, lembre-se – os impactos do rompimento da barragem de Mariana serão estudados pelas próximas décadas.

“A Samarco tem que fechar. Além de pagar pelo assassinato da 5ª maior bacia hidrográfica brasileira”

Leia com atenção o post completo de André Ruschi em 08 de novembro de 2015:

“Esta sopa de lama tóxica que desce no rio Doce e descerá por alguns anos toda vez que houver chuvas fortes e irá para a região litorânea do ES, espalhando-se por uns 3.000 km2 no litoral norte e uns 7000 km2 no litoral ao sul, atingindo três UCs marinhas – Comboios, APA Costa das Algas e RVS de Santa Cruz, que juntos somam uns 200.000 ha no mar.

Os minerais mais tóxicos e que estão em pequenas quantidades na massa total da lama, aparecerão concentrados na cadeia alimentar por muitos anos, talvez uns 100 anos.

RVS de Santa Cruz é um dos mais importantes criadouros marinhos do Oceano Atlântico.

1 hectare de criadouro marinho equivale a 100 ha de floresta tropical primária.

Isto significa que o impacto no mar equivale a uma descarga tóxica que contaminaria uma área terrestre de 20.000.000 de hectares ou 200.000 km2 de floresta tropical primária.

E a mata ciliar também tem valor em dobro.

Considerando as duas margens são 1.500 km lineares x 2 = 3.000 km2 ou 300.000 ha de floresta tropical primária.

Vocês não fazem ideia.

O fluxo de nutrientes de toda a cadeia alimentar de 1/3 da região sudeste e o eixo de ½ do Oceano Atlântico Sul está comprometido e pouco funcional por no mínimo 100 anos!

Conclusão: esta empresa tem que fechar.

Além de pagar pelo assassinato da 5ª maior bacia hidrográfica brasileira.

Eles debocharam da prevenção e são reincidentes em diversos casos.

Demonstram incapacidade de operação crassa e com consequências trágicas e incomensuráveis.

Como não fechar?

Representam perigo para a segurança da nação!

O que restava de biodiversidade castigada pela seca agora terminou de ir.

Quem sobreviverá?

Quais espécies de peixes, anfíbios, moluscos, anelídeos, insetos aquáticos jamais serão vistas novamente?

A lista de espécies desaparecidas foram quantas?

Se alguém tiver informações, ajudariam a pensar.

Barragens e lagoas de contenção de dejetos necessitam ter barragens de emergência e plano de contingência.

Como licenciar o projeto sem estes quesitos cumpridos?

Qual a legalidade da licença para operação sem a garantia de segurança para a sociedade e o meio ambiente?

Mar de lama…mas não seria melhor evitar que a lama chegasse ao mar?

Quem teve a brilhante ideia de abrir as comportas das barragens rio abaixo em vez de fechá-las para conter a lama e depois retirar a lama da calha do rio?

Quem ainda pensa que o mar tem o poder de diluição da poluição?

Isto é um retrocesso da ciência de mais de 1 século!!!!!

Temos uma cordilheira submarina que faz barreira nas correntes submarinas em frente ao local, formando um giro de 70 km de diâmetro que fará a contenção destes sedimentos nesta área específica que dimensionei.

É claro que os sedimentos chegarão aí sim, como têm chegado por mais de 120 milhões de anos.

Se o geólogo diz que não, o ecólogo diz que sim e sem dúvida!!!

Não sou leigo. Os fundamentos de convicção do geólogo são frágeis e, pior, incompletos, pois desconsideram a existência do oásis marinho que é a foz do Rio Doce e não deve saber dos efeitos que a cordilheira Vitória-Trindade têm no meio ambiente do oceano Atlântico e do continente da América do Sul.

E quanto às listas de espécies do rio agora extintas?

Não fala nada?

A caracterização físico-química dos sedimentos deveria estar descrita no EIA/RIMA de licenciamento do empreendimento.

Aqui no ES, sedimentos relacionados a pellets de minério de ferro têm revelado composição de cromo, cádmio, arsênio e mercúrio, sim.

Inclusive em lagoa da SAMARCO, lagoa de Maimbá entre Guarapari e Anchieta, já detectamos mercúrio. E os pellets da SAMARCO vem de MG pelo mineroduto.

E não se pode desvincular a responsabilidade da VALE.

Os metais pesados são cumulativos e persistentes na cadeia alimentar.

Portanto, no local de origem da maior cadeia alimentar do oceano atlântico é de se imaginar que o efeito cumulativo chegará no topo da cadeia alimentar.

É importante ter uma ideia do dimensionamento das coisas no tempo.

Pois este é o tempo de monitoramento e controle necessários.

Sendo Rio Federal a jurisdição é do governo federal portanto os encaminhamentos devem serem feitos ao MPF.

Fica a advertência para os olheiros das empresas: se essa coisa chegar ao mar o caso entra para jurisdição internacional. Lá tem prisão perpétua, pena de morte, sequestro de bens internacionais, etc.

André Ruschi

Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi

Aracruz, Santa Cruz, ES”

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