Lúcio Ventania: “os projetos para reparação não podem estar nas mãos dos que cometeram o crime”

Por Lúcio Ventania*

Fotos: Marcello Lourenço

Vínculos estreitos com bandidos, corrupção desenfreada, opressão, incompetência e agachamento diante da usura capitalista ao longo da história do Brasil impedem Governo, oposição e demais esferas de poder de adotarem postura cívica relevante, justa e eficiente diante do maior crime ambiental já visto no Brasil.

O fato de nenhuma instância de poder, até o momento, não decretar a prisão preventiva dos diretamente responsáveis, leia-se proprietários e dirigentes da Samarco, Vale e BHP, revela o verdadeiro preço das doações em campanhas eleitorais e atolam o país no lamaçal da impunidade. É como dizer: podem destruir tudo, mas não se esqueçam da minha comissão.

O inconformismo com tal comportamento pode abrir um precedente perigoso e avesso à natureza do povo Brasileiro: por indignação, fazer justiça com as próprias mãos. Qualquer poder seja judiciário, legislativo ou executivo perde legitimidade ao se omitir dos deveres constituintes. Diante das mortes em Bento Rodrigues e da destruição de um manancial da largura, extensão e profundidade do Rio Doce, Governo, Congresso e a própria Justiça são cúmplices. Ou por omissão, ou por conluio.

Bento Rodrigues, o Rio (outrora) Doce e o mar do Espírito Santo não são as primeiras e únicas vítimas de tragédias causadas por mineradoras no Brasil. O que dizer de Nova Lima – MG que ficou conhecida como a cidade com o maior número de viúvas do mundo, onde a maioria dos trabalhadores das minas viviam no máximo cinquenta anos?

Entre os anos 1940 e 1980, dos 904 trabalhadores na mina de Morro Velho, propriedade de ingleses, 304 foram tirados do trabalho por causa da silicose, uma doença ocupacional considerada crônica e sem cura. É caracterizada pela formação de nódulos nos pulmões, seu principal sintoma é a dificuldade de respirar. Muitos dos doentes precisam estar ligados a balões de oxigênio 24 horas por dia. Nesse período trabalhadores estavam sujeitos a explosões e desabamentos a todo instante devido ao gás metano que vinha da mina. Muitos iam para o trabalho no subsolo sem saber se iriam voltar.

O que dizer dos municípios de Pedra Branca e Pedra Preta do Amaparí, no norte do Amapá, onde o capital estrangeiro levou todo ouro e até hoje leva manganês? Já pensou em um lugarejo com menos de 1000 famílias onde uma mineradora se instala e despeja em acampamentos mais de dois mil forasteiros com fome de sexo? Pois é. Prostituição infantil, juvenil e de todas as formas que puder imaginar é o legado que essas empresas deixam nessas e em muitas outras cidades.

O que dizer de Serra do Navio, porta de entrada para o Parque Nacional do Tumucumaque, também no Amapá, onde a mineradora Icome, após um período de interrupção das atividades nos anos 90, deixou aproximadamente 150 mil toneladas de rejeitos com alta concentração de arsênio e outras substâncias tóxicas em uma barragem?

O arsênio contaminou a água da barragem e as águas do subsolo em suas imediações. Como na época das chuvas a barragem transbordava, os igarapés Elesbão I e II, usados pela população local para diversas finalidades, foram contaminados. Em Santana, município Amapaense com 101.203 habitantes (IBGE, 2010), a população ainda sofre com os efeitos da contaminação por arsênio. A intoxicação causa distúrbios gástricos, intestinais, renais, problemas no sistema nervoso central, dentre outros. Os moradores até hoje relatam uma incidência incomum de problemas de saúde.

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Sob as barbas do Governo, fazem severa e continuada lavagem cerebral nas comunidades locais e a ampliam com gordas cifras na mídia de alcance nacional: dizem que os royalties da mineração alavancam a capacidade de investimento em educação e saúde, aumentam a renda da população, preservam o meio ambiente, a cultura e o comércio tem resultado melhor. Pagam institutos de estatística para propalar que cidades mineradoras possuem melhores indicadores sociais.

Cuidadosamente plantam no coração de cada família o sentimento de que sem a mineração não haveria condições de sobrevivência. O povo aceita e engole de tal forma que, mesmo após tanta brutalidade, é capaz de se reunir em praça pública e bradar: “Se a mineração parar a cidade vai acabar!”.

E assim, na esteira das migalhas, vão alicerçando nas almas a cultura da dependência e do medo. Há quem grite, mas eles sabem, em breve serão vencidos pela rouquidão, pelo baixo volume da voz, pelo cansaço da solidão. Riem e continuam com suas dragas mortíferas.

O que fazer para remediar o amargo peso do crime que destrambelha a vida do Rio Doce e as vidas de quem vive do Rio? Sebastião Salgado é um grande fotógrafo, mas não é Deus e nem é o tempo. Vai pagar caro pela imprudência e por se gabar de ambientalista com dinheiro sujo.

No fundo do Rio isso não importa, o que importa é o que deve ser feito hoje: além da óbvia necessidade de interromper qualquer atividade mineradora no país e rever as leis de concessão para exploração de recursos naturais, dar voz e instrumentos para os movimentos sociais que clamam por justiça e desejam organizar ações para reparação dos danos.

Todas as comunidades, de Bento Rodrigues ao Oceano Atlântico, devem ser ouvidas. A prioridade é sanar emergências como regularização do fornecimento de água, moradias e renda para pescadores, pequenos agricultores e demais comunidades afetadas em sua capacidade de subsistência.

Os projetos para reparação não podem estar nas mãos dos que cometeram o crime. Toda e qualquer ação deve necessariamente ser debatida e amadurecida junto aos atingidos. Programas sociais e ambientais estruturados para no mínimo 30 anos. Metodologias e tecnologias ancoradas no que existe de mais adequado a processos limpos e saudáveis: Permacultura, Agrofloresta, Agricultura Orgânica e Biodinâmica, Apicultura, bancos de Sementes Crioulas, captação de Água de chuva, Fitoterapia, Bambu, Bioconstrução, Reciclagem de lixo, Sanitário seco, circulo de Bananeiras, Biodigestor, Energia eólica e solar. Enfim, tudo que possui comprovada eficiência ecológica e que no Brasil nunca foi levado a sério.

Para que os programas cumpram os propósitos de proporcionar vida saudável é preciso uma remodelação do sistema educacional, com capacitação de todos os envolvidos nas redes de ensino: gestores, professores, pais, aprendizes, funcionários e demais servidores. Inserir o ensino da ecologia, idiomas, música e teatro no currículo escolar.

É preciso revitalizar o sistema de saúde com a contratação de profissionais que atendam e acompanhem famílias nas casas, proporcionar transporte coletivo descente, valorizar a cultura e a arte popular, o cooperativismo, o associativismo e fazer da triste verdade que ampliou desmesuradamente a miséria de milhares de habitantes, uma realidade promissora. É quase fundar um novo país. Gente competente e disposta, o Brasil tem.

*Lúcio Ventania é mestre bambuzeiro em Ravena, distrito de Sabará, Minas Gerais (Facebook).

Maurício Angelo

Jornalista investigativo especializado em mineração, Amazônia, Cerrado e conflitos socioambientais. Fundador do Observatório da Mineração. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (2019).

One thought to “Lúcio Ventania: “os projetos para reparação não podem estar nas mãos dos que cometeram o crime””

  1. Como diz Drummond sempre fica um pouco. A lama tóxica que hoje é um oceano dentro de um rio, amanhã será apenas um pouco. Um pouco de metal pesado no DNA dos peixes e das plantas aquáticas, das tartarugas marinhas, dos caranguejos do mangue mutilado e nos pratos sobre a mesa farta daqueles que se batizarem na mesma água de onde vierem sua comida. Através de um grão de pólen a rosa de Hiroshima brotou, fez das minas um jardim, inestimavelmente irrigado… Talvez a irrigação valesse um rio, doce que fosse ainda valeria, não sei ao certo como estimar. Hoje atuarialmente Vale um Rio Doce e mais um pedaço do mar, sem falar nas histórias das férias gostosas que nossos futuros filhos, netos e bisnetos deixarão de contar.
    Mas houve um tempo em que no lugar que hoje conhecemos por Minas Gerais, existia uma natureza imperiosa, onde um conjunto de montanhas serpenteava como águas ondulantes, fazendo crer que aqueles que ali andavam na verdade nadavam. Por este tempo, o mar de montanhas assumia o fronte de batalha e tenazmente oferecia um exército de sentinelas às nascentes, e a toda parte dos rios… Toda a água protegida por gigantes… E os homens eram felizes assim.
    Hoje o nosso mar parece cabisbaixo e escravo. Algumas das montanhas, no avesso do afã do que outrora era glória, batem no peito de ferro moído e dizem que nem todos os rios vingam… Na vil tentativa de esconderem a vergonha, tentam justificar a incompetência em proteger os rios dantes límpidos e agora lamaçais estéreis. Escondem que estão na mesma fila de extermínio em massa e assistem o seu próprio montanhicídio. Não sou geógrafa, por isso me pergunto o que aconteceu com essas montanhas. Se envelheceram e perderam a vitalidade, se estão na adolescência e agora se explodem como montanhas bomba. Talvez quando eram crianças houvesse um ente superior que cuidasse da proteção dos rios e das próprias montanhas.
    Atualmente são os homens, errantes por natureza, que fazem esse trabalho, o de sentinela. As montanhas foram vergonhosamente rebaixadas à condição de pedregulho, poeira e lama. Homens simples é que vigiam e sem nenhum curso ou especialização. Homens brancos alheios aos rituais de passagem dos Krenak ou qualquer outra tribo. Outro dia vi que um fotógrafo, o Sebastião Salgado, se alistou para sentinela. Fez do alistamento uma empresa, o Instituto Terra. Foi usando a velha tática de se infiltrar no campo inimigo e acabou conseguindo sentar-se à mesa do grupo terrorista que recrutava montanhas bomba. Pensando bem não sei se foi uma tática, talvez uma condição, ou mesmo mera coincidência num mundo em que ambientalistas são financiados por mineradoras… Movido pela esperança no futuro da humanidade, trabalha o sentinela indiferente aos meios.
    Infelizmente, as montanhas mais impetuosas ameaçavam com mais e mais ataques bombas. Elas já não cederiam ao achincalhe de terem visto a revolução acontecer de modo passivo. Todos os homens pareciam crer que apenas nomeando aquelas rochas ondulantes formadas pela mais equilibrada mistura de minério de ferro, ouro, manganês, silício, bauxita e incontáveis rejeitos com o nome de Minas Gerais eternizariam o caráter explorador no seu próprio sangue. Essas montanhas detestavam viver em um lugar onde todos são mineiros e não homens que herdando a Terra deveriam protegê-la num ato contínuo de louvor. Amarguradas as montanhas envolvem corpos, rios e mar. Em uma vingança estúpida já não querem virar aço na China nem no Japão e ver seus sentinelas pagando caro por peças indispensáveis ao seu consumismo desenfreado. Elas já não querem justiça e gritar que o slogam “venham nos poluir” não só é retrocesso, como é sangue, miséria e finitude da nossa maior riqueza. Silentes viram o preço que o povo aos seus pés anunciava por suas entranhas. Aviltadas viam o preço com que se compra por seus pedaços em forma de aço. Elas estão indiferentes aos vagões cuja palavra inflamável foi riscada e em seu lugar escrita água potável, que, aliás, foi fornecida aos moradores das cidades que não tem mais rios limpos para matarem a sede. Por que acreditam que o homem merece beber água com gosto de querosene. Não se importam mais com a vida. Aterrorizam desabrigados. Elas estão rindo dos homens que querem apenas seus empregos, seus lucros, sua imagem, seu mandato. Porque elas querem provar que o minério de ferro mais puro do mundo está barato e que muitos são aqueles que vão pagar o preço real. Entendo realmente o que é um desastre natural, a vingança das montanhas é um relato disso. Façamos uma oração para que as montanhas parem com essa atitude tão indolente.

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