Por Maurício Angelo e Lúcio Lambranho
A análise da prestação de contas da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro feita pelo Observatório da Mineração identificou 21 doadores com vínculos documentados com o setor de mineração. Juntos, eles repassaram R$ 1,6 milhão, o equivalente a 2% da receita total declarada pela campanha.
No topo da lista de financiadores individuais da campanha de Flávio Bolsonaro surge o empresário gaúcho Erasmo Carlos Battistella, responsável pelo maior aporte individual ao candidato, no valor de R$ 500 mil.
O empresário também figura como o maior doador pessoa física da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, para quem repassou exatamente a mesma quantia de R$ 500 mil, que representa somente 0,4% da arrecadação total de Lula.
A coincidência coloca o empresário como uma figura central no financiamento das duas principais candidaturas da disputa presidencial e com negócios no setor mineral.
Todas as doações são legais e registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Conhecido como o “rei do biodiesel” e fundador da BSBios (atual Be8) e do Grupo ECB, Battistella expandiu sua atuação empresarial para o setor minerário em 2023 com a criação da BCM Brasil Concessões e Mineração Ltda, na qual atua como sócio administrador, empresa com capital social de R$ 10 milhões.
A BCM detém junto à Agência Nacional de Mineração (ANM) seis processos ativos de autorização de pesquisa voltados para minerais estratégicos e de alta tecnologia. O portfólio da empresa abrange cinco processos de pesquisa de lítio no estado de Alagoas (transferidos para a BCM em 2026), além de um processo para exploração de zircão, monazita, terras raras e argila industrial no Paraná.
Em nota enviada à reportagem, Battistella afirmou que “as doações mencionadas foram realizadas como pessoa física, dentro dos limites estabelecidos pela legislação eleitoral brasileira. O empresário reafirma o seu compromisso com as melhores práticas de governança, integridade e transparência”.
Histórico no biodiesel de Battistella indica negócios com a Petrobras e proximidade com o poder em diferentes governos
A trajetória empresarial de Erasmo Carlos Battistella e do grupo hoje denominado Be8 foi detalhada, em 2021, na reportagem “Os empurrões da Petrobras nos negócios do ‘rei do biodiesel’”, publicada pelo The Intercept Brasil. A apuração examinou o papel das parcerias e transações com a Petrobras na expansão da então BSBios, fundada por Battistella em 2005.
Segundo a reportagem, a Petrobras Biocombustível adquiriu 50% da usina de Marialva, no Paraná, por R$ 55 milhões em 2009, meses depois de a BSBios comprar a planta ainda inacabada por cerca de R$ 37 milhões. A diferença entre os valores levou o então ministro do Tribunal de Contas da União José Jorge a classificar o negócio como uma “mini-Pasadena”. Em 2011, a estatal desembolsou outros R$ 200 milhões por metade da unidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Após auditorias e pedidos de esclarecimento, o TCU concluiu, em 2020, que haviam sido afastadas as suspeitas de antieconomicidade nas duas aquisições.
A Petrobras vendeu sua participação de 50% na BSBios para uma empresa de Battistella por R$ 322 milhões, em operação concluída em fevereiro de 2021. O Intercept reproduziu questionamentos do Sindipetro-RJ sobre a formação desse preço, incluindo a alegação de que ampliações na capacidade das usinas não teriam sido adequadamente consideradas. O inquérito civil instaurado pelo Ministério Público Federal para apurar a operação acabou arquivado em 2024. Ao homologar o arquivamento por unanimidade, a 5ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF registrou que a Comissão de Ética Pública havia afastado a hipótese de conflito de interesses, que o TCU não identificara irregularidades na alienação e que não foram comprovados crime ou ato de improbidade.

A reportagem também abordou o interesse de Battistella na aquisição da Petrobras Biocombustível, a PBio, então colocada à venda. A negociação, porém, não se concretizou. Em novembro de 2024, a Petrobras encerrou o processo de desinvestimento e manteve a subsidiária em seu portfólio. O saldo de aproximadamente R$ 2,3 bilhões mencionado pelo Intercept correspondia principalmente a prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL passíveis de compensação futura, e não a um crédito em dinheiro de realização automática. Em 2024, parte do benefício fiscal calculado sobre essas bases, cerca de R$ 963,9 milhões, foi cedida à própria Petrobras e utilizada em uma transação tributária com a Receita Federal e a PGFN, conforme as demonstrações financeiras da PBio.
No campo político, o Intercept destacou encontros de Battistella com Jair Bolsonaro, ministros, parlamentares e integrantes do TCU durante o governo anterior. A interlocução institucional de Battistella prosseguiu durante o governo Lula. Em agosto de 2023, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, participou, na sede da Be8 em Passo Fundo, do anúncio de uma usina de etanol de cereais. Também estiveram no evento o governador Eduardo Leite, o então ministro Paulo Pimenta e o prefeito Pedro Almeida.
Em abril de 2026, Lula visitou o estande da Be8 na Feira Industrial de Hannover, na Alemanha, onde conheceu o Be8 BeVant, biocombustível desenvolvido e patenteado pela empresa.

Prefeito mais rico do Mato Grosso do Sul fez segunda maior doação para Bolsonaro
O segundo maior doador individual da campanha de Flávio Bolsonaro é o empresário do agronegócio Walter Schlatter, que contribuiu com o valor de R$ 300 mil. Schlatter, eleito prefeito de Chapadão do Sul, em Mato Grosso do Sul, também possui histórico de registros no setor de mineração. Nos arquivos da ANM, o prefeito consta pessoalmente vinculado a dois processos para licenciamento e extração de cascalho localizados no município de Mineiros, em Goiás. Schlatter ganhou projeção nacional em 2024 ao ser citado como o candidato a prefeito mais rico do Mato Grosso do Sul e o quinto mais rico de todo o Brasil.
Empatado no valor do repasse, o advogado e empresário Alexandre Ribeiro Chequer também doou R$ 300 mil para a candidatura. Chequer possui histórico no setor mineral por ter integrado o quadro de sócios da EV Pesquisa e Mineração Ltda., empresa de estudos geológicos aberta em 2008 e baixada em 2015. A EV também participou da Mining Ventures do Sul Pesquisa e Mineração, configurando um vínculo societário histórico na área de mapeamento e pesquisa mineral.
Com um aporte de R$ 125 mil, o empresário Marco Antonio Branquinho Junior figura como o quarto doador do grupo ligado à mineração. Branquinho Junior atuou desde 2013 como administrador da Mineração Cedrense Ltda., empresa que acabou incorporada pela Companhia de Fiação e Tecidos Cedro e Cachoeira. Os registros da ANM conservam 23 processos vinculados à mineradora, sendo dois deles ativos para captação de água mineral e potável em Santana do Riacho (MG), acumulando histórico de autos de infração por atraso na entrega de relatórios obrigatórios de pesquisa.
O produtor rural e empresário Inácio José Webler contribuiu com R$ 100 mil para a campanha de Flávio Bolsonaro. Webler é titular do processo minerário 867.047/2013 na ANM, referente a uma área de 8,17 hectares em Sapezal (MT) voltada para a extração de cascalho destinado à fabricação de brita. O processo encontra-se em fase de licenciamento e registra um Auto de Infração emitido em 2017, além de um indeferimento de pedido ambiental publicado pela Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso em 2023 por inércia do interessado.
Fechando a lista dos seis maiores doadores do setor, a empresária Sidônia Maria Walker repassou R$ 100 mil à candidatura de Flávio Bolsonaro. Sidônia é sócia-administradora da Pianca Mineração Ltda., empresa voltada ao beneficiamento de granito em Valinhos (SP). A mineradora possui 26 relações processuais na ANM, mantendo duas ativas: uma concessão de lavra de granito em Campinas e Valinhos e uma autorização de pesquisa para caulim e granito, somando registros administrativos de autos de infração por ausência de relatórios de pesquisa em 2022 e 2025.
Programa de governo de Lula promete combate ao garimpo, mas gestão recebe críticas sobre questões socioambientais
Além de insistir em seus discursos de que o país vai manter sua soberania sobre a produção de terras raras e demais minerais críticos, o programa de governo de Lula tem uma citação específica sobre os garimpos. “O combate à mineração ilegal continuará sendo prioridade estratégica, com investigação financeira obrigatória em todas as ações de desarticulação de organizações criminosas”, afirma o programa de ações da campanha.
Sobre terras raras, Lula informa que pretende criar uma política específica “capaz de organizar suas cadeias produtivas, diferenciar seus usos tecnológicos e evitar a simples exportação de matérias-primas estratégicas. Promoveremos uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos”, promete.
Além de críticas do terceiro setor sobre a falta de ações para mitigar danos ambientais, como destacamos na briga com o governo de Ronaldo Caiado, e o aval financeiro para projetos de minerais críticos que têm contestações sobre seus riscos socioambientais, o conselho que irá aplicar Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada por Lula, deu duas cadeiras ao setor privado, mas não reservou assentos a comunidades afetadas ou organizações da sociedade civil, como revelou o site Repórter Brasil.

Flávio Bolsonaro promete licenciamento “ágil e técnico” e combate ao garimpo, contra o histórico do seu pai
Já Flávio Bolsonaro pertence ao grupo político que, sob o comando do seu pai, incentivou e permitiu que o garimpo em terras indígenas explodisse, como detalhamos no relatório de 2023 “Dinamite pura: como a política mineral do governo Bolsonaro armou uma bomba climática e anti-indígena“ e também em análise sobre as digitais dos bolsonaristas que participaram da tentativa de golpe.
Ao contrário do que aconteceu no governo Bolsonaro, porém, o candidato também afirma no programa de governo que vai combater garimpos ilegais e outros crimes associados. “Vamos ampliar a cooperação com os países vizinhos contra os crimes ambientais transfronteiriços e reforçar o combate às organizações criminosas envolvidas em desmatamento, extração ilegal de madeira, garimpo ilegal e ocupação irregular de terras públicas”, promete.
O candidato tem um tópico específico sobre minerais críticos entre suas propostas. Em negrito destaca, entre outras ações, um licenciamento “ágil e técnico”, um indicativo da simplificação das regras ambientais no setor que gera muito impacto e que se aproxima do chamado PL da Devastação (Lei Geral do Licenciamento Ambiental), aprovado em 2025, vetado por Lula, mas que o Congresso derrubou 56 vetos dos 63 aplicados pelo atual presidente em grande parte também patrocinado pelo grupo político do senador agora candidato.
“O Estado atuará como regulador e coordenador, não como empresário, apoiado em seis pilares: marco regulatório claro e estável, licenciamento ágil e técnico, atração de capital e tecnologia, verticalização com incentivos de mercado, governança e transparência”, afirma.
De grandes mineradoras ao garimpo: dinheiro da mineração atravessa partidos e eleições
O financiamento de campanhas por empresas e empresários ligados à mineração aparece há mais de uma década nas apurações do Observatório da Mineração. Os levantamentos abrangem diferentes partidos, regiões e esferas de governo, do apoio a candidaturas presidenciais ao financiamento de prefeitos em municípios dependentes da extração mineral. As doações citadas foram declaradas à Justiça Eleitoral e, isoladamente, não comprovam favorecimento ou contrapartida. A relevância jornalística está na proximidade entre financiadores privados e agentes públicos responsáveis por legislar, licenciar ou fiscalizar atividades de interesse dos doadores.
Em Minas Gerais, a eleição de 2014 mostrou a extensão dessa influência econômica. Reportagem publicada em parceria com a Mongabay revelou que a Vale doou R$ 82 milhões a candidatos de 25 estados naquele pleito. O então candidato ao governo mineiro Fernando Pimentel (PT) recebeu R$ 1,5 milhão da empresa, diretamente ou por intermédio do comitê nacional. Mineradoras financiaram 102 deputados federais e estaduais eleitos por Minas, o equivalente a 78% dos vencedores. Na Assembleia Legislativa, sete de cada dez parlamentares eleitos receberam recursos do setor.
A apuração relacionou esse ambiente político à criação da Superintendência de Projetos Prioritários, a Suppri, estrutura do governo mineiro que acelerou a análise de empreendimentos considerados estratégicos. Entre os 108 projetos encaminhados ao órgão desde 2017, 25 pertenciam à Vale e 21 estavam enquadrados nas classes 5 ou 6, as mais elevadas da escala utilizada. A lista incluía o complexo do Córrego do Feijão, em Brumadinho. O governo mineiro declarou que a seleção seguia critérios técnicos e negou interferência política; a Vale afirmou ter cumprido as exigências previstas na legislação estadual.
Outro episódio envolveu o deputado estadual Thiago Cota, eleito em 2014 após receber R$ 110 mil das mineradoras Phoenix e Corumbaense. Seu partido à época, o PPS, recebeu mais de R$ 2 milhões de empresas como Gerdau, Vale, Braskem e AngloGold. Em 2021, Cota apresentou um projeto que alterava os limites do Monumento Natural Estadual da Serra da Moeda e permitia a expansão da Mina Várzea do Lopes, da Gerdau. A reportagem apontou semelhanças entre a proposta e o projeto divulgado pela companhia. A Gerdau afirmou que a mudança conciliaria preservação ambiental, empregos e desenvolvimento econômico; o parlamentar sustentou que a alteração havia sido debatida e não provocaria impacto ambiental significativo.
Nas eleições presidenciais de 2022, o Observatório mostrou que Glaúcio, Jairo e Mardoquel Herculano Antunes, proprietários da Herculano Mineração, doaram juntos R$ 750 mil para Jair Bolsonaro. À época da publicação, os três eram réus por homicídio qualificado pelas mortes de três trabalhadores no rompimento de uma barragem da empresa em Itabirito, ocorrido em 2014, além de responderem por delitos ambientais. A matéria inseriu as contribuições no contexto da proximidade do governo Bolsonaro com empresários do garimpo e da defesa de mudanças no licenciamento ambiental e da mineração em terras indígenas.
A cobertura também identificou aportes do setor a Alexandre Silveira. Quando ele foi nomeado ministro de Minas e Energia, em 2023, o Observatório mostrou que a chapa ao Senado da qual participou como suplente recebeu mais de R$ 2 milhões de mineradoras em 2014. CBMM e Minerações Brasileiras Reunidas doaram R$ 500 mil cada; a Gerdau, R$ 400 mil; e a Vale Energia, R$ 300 mil. Também aparecem ArcelorMittal, Usiminas, Vallourec, Vale Minas do Azul e Aperam. Em 2022, Frederico Carlos Gerdau Johannpeter doou R$ 200 mil ao diretório mineiro do PSD, posteriormente repassados à campanha de Silveira. Procurados na ocasião, o ministro e o MME não apresentaram resposta às perguntas sobre mecanismos de prevenção de conflitos de interesse.
A Braskem adotou em 2014 uma estratégia nacional de financiamento que alcançou grupos políticos adversários. A petroquímica doou R$ 8,4 milhões naquele pleito. Em Alagoas, Renan Filho recebeu R$ 320 mil e Benedito de Lira, pai de Arthur Lira, R$ 300 mil, considerando repasses diretos e recursos distribuídos pelos partidos. Fernando Collor recebeu R$ 171 mil. No plano nacional, Dilma Rousseff recebeu R$ 2,2 milhões e Aécio Neves, R$ 2 milhões. A reportagem recuperou os dados no contexto do desastre provocado pela extração de sal-gema da Braskem em Maceió. A assessoria de Renan Filho ressaltou que as doações empresariais eram permitidas e afirmou que seu governo adotou as providências necessárias após a identificação do desastre. Benedito de Lira não respondeu.
Após a proibição das contribuições empresariais diretas pelo STF, os vínculos passaram a aparecer principalmente em doações realizadas por pessoas físicas. Na bacia do Tapajós, empresários do garimpo e da mineração doaram mais de R$ 400 mil nas eleições municipais de 2020. Valdinei Mauro de Souza, o Nei Garimpeiro, destinou R$ 200 mil à campanha que reelegeu Valmir Climaco (MDB) em Itaituba. Dirceu Frederico Sobrinho, proprietário da FD Gold, doou R$ 90 mil ao então prefeito de Novo Progresso, Ubiraci Soares Silva. Márcio Macedo Sobrinho, ligado à Gana Gold, distribuiu recursos entre um candidato a prefeito e postulantes à Câmara Municipal. Em Jacareacanga, o ex-delegado da Polícia Federal Alexandro Cristian dos Santos Dutra doou R$ 6,5 mil ao candidato vencedor; dois meses depois, foi preso sob suspeita de vender informações a proprietários de garimpos ilegais. Os doadores procurados negaram que as contribuições tivessem como objetivo obter benefícios para seus empreendimentos ou não responderam.
A frente mais recente da cobertura mostrou como essas redes também alcançam partidos por meio de empresários ligados indiretamente a grupos mineradores. Em 2022, Francine Prado Kallas doou R$ 990 mil à direção nacional do PSD e R$ 400 mil ao PP de Minas Gerais. Dois anos depois, repassou R$ 1 milhão ao diretório paulista do PSD. Francine integra uma rede societária relacionada a Lucas Kallas e a executivos da Cedro Mineração e da Extrativa Mineral. Uma decisão da diretoria da Agência Nacional de Mineração havia beneficiado a Extrativa ao restabelecer direitos sobre uma área de minério de ferro em Nova Lima, contrariando pareceres técnicos. A decisão foi posteriormente revista pela própria agência, mas uma liminar judicial suspendeu os efeitos dessa revisão enquanto o caso segue em disputa. PSD, MME, empresas e envolvidos foram procurados; parte deles não respondeu.
O histórico revela um padrão de financiamento distribuído entre partidos e campos políticos distintos, em eleições nacionais, estaduais e municipais.
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