Apesar de Brumadinho, setor mineral faturou mais de R$ 1 trilhão no Brasil desde 2019

A morte de 270 pessoas causada pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, Minas Gerais, que completa cinco anos neste 25 de janeiro, não comprometeu em nada os lucros do setor mineral brasileiro.

Pelo contrário. Desde 2019, as maiores mineradoras do Brasil faturaram valores que superam com folga R$ 1 trilhão de reais, ainda sem considerar o segundo semestre de 2023.

Os dados são compilados e divulgados pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), que representa 90% das empresas do setor. O recorde foi em 2021, com R$ 339 bilhões de faturamento, seguido de R$ 250 bilhões em 2022, R$ 120 bilhões no primeiro semestre de 2023, R$ 209 bilhões em 2020 e R$ 153 bilhões em 2019, ano do desastre.

Apesar de Brumadinho, portanto, considerado o pior “acidente de trabalho” da história do Brasil e um dos desastres mais letais da indústria mineral no mundo e da pandemia de Covid-19, o setor mineral bateu recordes de lucro nos últimos cinco anos.

Isso se explica, entre outros fatores, porque o mundo passa por um novo “boom de commodities”, com algumas commodities minerais em alta no mercado internacional e a elevada cotação média do dólar.

Foto de destaque: Sala de Segurança e Operações da Vale após rompimento de barragem na Mina do Córrego do Feijão em Brumadinho / Isis Medeiros

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Vale lucrou R$ 265 bilhões em 5 anos

A Vale, responsável pela barragem de Brumadinho, como maior mineradora do Brasil e entre as 5 maiores do mundo, responde em grande parte pelos resultados do setor mineral. A Vale se recuperou rápido das perdas registradas em 2019, de R$ 6,6 bilhões, ano do rompimento.

Nestes cinco anos, descontado o prejuízo citado, a Vale lucrou impressionantes R$ 265 bilhões de reais, ainda faltando os resultados do último trimestre de 2023. Mais de um quarto do resultado de todo o setor mineral no período.

Em 2021 a Vale registrou o recorde histórico de R$ 121 bilhões de lucro, maior resultado da história de uma empresa de capital aberto no Brasil. Em uma conta simples, a Vale lucrou, somente em 2021, R$ 331 milhões por dia, R$ 13,7 milhões por hora e R$ 228 mil por minuto.

Boa parte do lucro registrado pela Vale nestes 5 anos foi para o bolso dos acionistas. Segundo levantamento, a Vale pagou cerca de R$ 147 bilhões aos acionistas em forma de dividendos e juros sobre capital próprio desde 2019.

Em 2021 a Vale ficou na oitava posição entre as maiores empresas que pagaram dividendos no mundo. Sua sócia na Samarco, a mineradora BHP, vem regularmente figurando no topo do ranking de maiores pagadoras de dividendos globais.

Reparação problemática por Brumadinho. Barragens seguem preocupando.

O acordo de reparação foi assinado em fevereiro de 2021 entre Vale e governo de Minas Gerais, criticado pelo desconto concedido, por não contemplar os atingidos no processo e por favorecer a reeleição de Romeu Zema (Novo) com obras em todo o estado. 68% dos R$ 37,7 bilhões previstos foram executados até o momento.

Segundo a Vale, 15,4 mil acordos de indenização foram fechados até o momento e ao menos um familiar de todos os empregados falecidos – próprios e terceirizados – celebrou acordo de indenização.

Matéria da Repórter Brasil desta semana, porém, alerta que dos 319 processos julgados entre janeiro de 2019 e março de 2023 por 11 câmaras cíveis do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (TJMG), 75% das decisões foram desfavoráveis aos atingidos. Após recursos da Vale, a justiça chega a cortar até 80% dos valores de cada indenização.

Entre as atividades que marcam os cinco anos do rompimento, foi lançado o Observatório das Ações Penais sobre a Tragédia de Brumadinho, que facilita o acompanhamento sobre os processos judiciais em andamento no Brasil e no mundo. Fábio Schvartsman, ex-presidente da Vale, por exemplo, pode se livrar da ação penal pelo rompimento de Brumadinho por um habeas corpus. Schvartsman já conta com um voto favorável no TRF6.

A Vale alega que, desde 2019, eliminou 13 barragens a montante, uma exigência legal.

A descaracterização de todas as barragens a montante – método mais barato e menos seguro usado em Brumadinho e Mariana, que já teve prazo ampliado pela Agência Nacional de Mineração – ainda vai demorar, com prazo previsto somente para 2035.

Das barragens em situação de risco no Brasil segundo o último levantamento da ANM, 18 são da Vale, todas em Minas Gerais.

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