Faturamento de mineradoras cresce 37% durante a pandemia; acumulado de 2020 registra R$ 126 bilhões

Um estudo recém-publicado do Ministério da Economia revelou que as mineradoras brasileiras faturaram 37,6% a mais de abril a julho de 2020, durante a pandemia de Covid-19 que já matou mais de 161 mil pessoas no Brasil, em comparação ao mesmo período de 2019.

A mineração foi o setor que registrou o maior crescimento entre todos os analisados pelo estudo.

Os números impressionam, mas não surpreendem. Durante os últimos meses, na extensa cobertura que fizemos aqui no Observatório sobre a mineração e a pandemia, mostramos como as mineradoras brasileiras atuaram – com o apoio do governo federal – para tornar a mineração uma atividade essencial.

O governo Bolsonaro, com a anuência do ministro Bento Albuquerque, de Minas e Energia e Paulo Guedes, da Economia, correu para publicar uma portaria sábado à noite e garantir a continuidade das atividades minerais.

Mesmo que, já no fim de março, contágios estavam comprovados entre trabalhadores de várias mineradoras. Ainda em 10 de abril, um funcionário da Vale morreu por Covid-19 no Pará.

Quando perguntei às maiores mineradoras do país – também no início de abril – o que estavam fazendo para evitar a pandemia, a contaminação entre os seus trabalhadores e o consequente colapso das cidades em que atuam, metade ficou em silêncio.

Esse faturamento extra de 37% não acontece por acaso. A pior pandemia dos últimos 100 anos trouxe lucros exponenciais para as mineradoras. Às custas dos milhares de trabalhadores que literalmente arriscaram e arriscam as suas vidas e das suas famílias para manter a extração 24 horas por dia.

Cidades como Parauapebas (PA), Itabira (MG) e Congonhas (MG), para citar só 3, enfrentaram um verdadeiro colapso e minas chegaram a ser paralisadas. Vale e CSN seguiram produzindo e recorrendo à justiça sempre que necessário. A Vale conseguiu rapidamente reverter a paralisação em Itabira. Em Parauapebas, centro do maior projeto de extração de minério de ferro do mundo, o fluxo de trabalho seguiu sem interrupções.

Com cerca de 200 mil habitantes, Parauapebas registrou mais de 28 mil casos de Covid-19 e 195 óbitos até o momento. Quando publiquei essa matéria em parceria com o Intercept Brasil em 26 de março mostrando a aglomeração de trabalhadores da Vale em Carajás, Parauapebas tinha somente 26 casos suspeitos.

A Vale acaba de divulgar um lucro líquido de R$ 15,6 bilhões no terceiro trimestre de 2020, mais do que o dobro dos R$ 6,5 bilhões registrados no mesmo período de 2019. No primeiro semestre de 2020, o lucro da Vale foi superior a R$ 6 bilhões. Em setembro, a Vale já havia anunciado que distribuirá R$ 12,4 bilhões em remuneração aos seus acionistas.

“A Vale, com o seu poder financeiro, vai esticar a corda até onde der e vai arrebentar do lado mais fraco. Não importa se serão 50 ou 100 mortes. Depois ela vai tentar reverter isso fazendo o que ela tá fazendo com o governo federal, os estados e municípios. Ela paga para calar a boca dos órgãos que deveriam proteger a sociedade”, me disse Evaldo Fidelis, trabalhador da Vale no Pará que pegou a Covid-19 e precisou encarar a mineradora para ter seu diagnóstico reconhecido. Enquanto o trabalhador “está se lascando para sobreviver”, me disse, “a Vale tá ganhando bilhões na pandemia”.

No acumulado do ano – nos três trimestres –, a indústria da mineração faturou R$ 126 bilhões. Minério de ferro (63%) e ouro (13%) são os principais responsáveis por esses números.

No meio da pandemia, mineradoras comemoram

O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), que representa as maiores mineradoras do país, comemora fortemente o desempenho da indústria ao divulgar os números do 3º trimestre de 2020 e destaca o “cenário otimista” para os próximos meses.

Os números são conclusivos sobre o peso que a mineração brasileira teve na pandemia, desprezando a vida dos trabalhadores.

Segundo o IBRAM, o saldo mineral, que é a diferença entre exportação e importação de minérios, correspondeu a 45,5% – US$ 9,3 bilhões – do saldo comercial total do Brasil no 3º trimestre – US$ 20,5 bilhões.

As exportações de minérios foram de US$ 10,6 bilhões (107,8 milhões de toneladas) e as importações US$ 1,3 bilhão (9,3 milhões de toneladas). O saldo mineral do Pará equivale a quase 54% do saldo mineral total e o de Minas Gerais equivale a 37% do total.

A valorização cambial e os preços das commodities minerais influenciaram no faturamento de R$ 50 bilhões. A produção também aumentou e está estimada em aproximadamente 287 milhões de toneladas de minérios, acima da registrada no 2º trimestre (cerca de 210 milhões de toneladas) e também superior, na comparação com a do 3º trimestre de 2019 (280 milhões de toneladas).

A exportação de minérios no 3º trimestre (107,8 milhões ton.) foi 35,8% superior em toneladas a do 2º trimestre de 2020 (79 milhões ton.) e 2,4% acima do realizado no 3º trimestre de 2019 (105 milhões de ton.).

Todos os números indicam resultados superiores aos de 2019.

As exportações de minério de ferro – que representa os maiores negócios de comércio exterior do setor mineral brasileiro – totalizaram cerca de US$ 8 bilhões (103 milhões de toneladas). Esse resultado superou o registado no 2º trimestre em 62% (em dólar) e em 36% (em toneladas): US$ 4,9 bilhões (75,6 milhões de toneladas); e também superou o 3º trimestre de 2019 em 12% (em dólar) e em 11% (em toneladas): US$ 7 bilhões (93 milhões de toneladas).

As exportações de ouro no 3º trimestre de 2020 foram de US$ 1,4 bilhão (quase 26 toneladas), resultado 26% superior em dólar e 13% em toneladas aos números do 2º trimestre: US$ 1,1 bilhão (23 toneladas); e também 52% superior em dólar e 17% em toneladas em relação ao 3º trimestre de 2019: US$ 902 milhões (22 milhões de toneladas).

No início de abril, quando a mineração foi considerada essencial pelo governo, Bruno Milanez, doutor em política ambiental e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), me disse que seria possível deixar pelo menos 70% dos trabalhadores em casa “sem problema algum de desabastecimento”.

“Precisaria ter inteligência, esforço e vontade de fazer o que é correto. Mas não parece ser a posição do MME, que é a de manter tudo funcionando como se todo o minério extraído fosse ser usado pelo Brasil nesse momento, o que é uma falácia”, afirmou Milanez.

Para o pesquisador, o contexto da publicação da portaria deu a entender que as mineradoras não queriam deixar de vender ou entregar o minério que foi vendido. A motivação seria puramente comercial, portanto, sem qualquer preocupação com a saúde das milhares de pessoas que trabalham para as empresas.

“Seria interessante que eles colocassem qual é a relevância do ouro para a produção de remédios e todas as coisas que consideram essenciais para o combate à pandemia. Tem vários minérios aí que não são nem um pouco essenciais e necessários nesse momento”, lembrou Milanez.

Hoje, os números comprovam integralmente quais eram as motivações da indústria. E como isso se concretizou.

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