Trump Jr. e Donald Trump. Foto: Anna Rose Layden/Getty Images

Empresa ligada ao filho de Trump tem empréstimo de US$ 620 milhões anunciado pelo governo dos EUA e parceria com mineradora de terras raras na Bahia

ANÁLISE | O governo dos Estados Unidos comprometeu centenas de milhões de dólares para financiar uma fabricante de ímãs ligada a um fundo de investimentos de Donald Trump Jr. A operação, impulsionada pela Casa Branca, envolve uma empresa parceira da mineradora Energy Fuels, que controla projetos de terras raras no sul da Bahia, próximos a uma reserva ambiental.

Em novembro de 2025, o governo de Donald Trump anunciou um empréstimo de US$ 620 milhões para uma startup norte-americana fabricante de ímãs permanentes de terras raras. A Vulcan Elements, criada apenas dois anos antes e sediada na Carolina do Norte, acabava de receber investimentos de um fundo do qual Donald Trump Jr., filho mais velho do presidente dos Estados Unidos, é sócio. O financiamento, anunciado pelo Pentágono, foi o maior compromisso individual de empréstimo já assumido pelo seu Escritório de Capital Estratégico (OSC, na sigla em inglês) até aquele momento.

A operação integra um pacote de aproximadamente US$ 1,4 bilhão anunciado para ampliar a produção de ímãs de terras raras nos Estados Unidos. Incluía outros US$ 50 milhões em incentivos do Departamento de Comércio, com previsão de participação acionária do governo federal, além de investimentos privados e de um financiamento separado de US$ 80 milhões à ReElement Technologies, parceira industrial da Vulcan. Este último empréstimo acabou abandonado pela empresa em julho de 2026.

O caso que envolve dinheiro público, interesses empresariais da família presidencial e a estratégia norte-americana para reduzir sua dependência da China no processamento de terras raras ganhou ainda mais relevância quando uma investigação publicada pela ProPublica em 28 de maio de 2026 revelou que a iniciativa de acelerar o financiamento partiu diretamente da Casa Branca, por meio de Peter Navarro, conselheiro de Trump para comércio e indústria e amigo pessoal de Donald Trump Jr.

Segundo documentos do Departamento de Defesa e entrevistas com funcionários que participaram do processo, a solicitação de Navarro fez com que o Pentágono tratasse o empréstimo como prioridade, em um procedimento concluído em poucas semanas. Entre dezenas de empresas em avaliação, a Vulcan teria sido a única cuja solicitação foi iniciada por um assessor de alto escalão do presidente.

O Brasil aparece no cenário ao passo que a Vulcan mantém uma parceria comercial com a Energy Fuels, mineradora norte-americana que adquiriu direitos sobre depósitos de terras raras e outros minerais no litoral sul da Bahia. A companhia aparece entre as principais interessadas na exploração mineral na zona de amortecimento da Reserva Extrativista de Cassurubá, conforme revelou uma investigação publicada por este Observatório da Mineração semana passada, em 29 de outubro.

A cadeia de relações empresariais e políticas merece atenção porque permite observar, em um caso concreto, como o governo dos Estados Unidos está financiando a construção de sua própria indústria de minerais críticos, inclusive em segmentos ligados à defesa, enquanto empresas norte-americanas ampliam seu controle sobre recursos minerais em outros países.

O fundo do filho de Trump e a decisão do Pentágono

A Vulcan Elements foi fundada em 2023 pelo empresário John Maslin, que já havia servido à Marinha norte-americana. A empresa fabrica ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro, utilizados em veículos elétricos, equipamentos industriais, sistemas eletrônicos, satélites, caças, mísseis e drones.

Em agosto de 2025, a startup anunciou a conclusão de uma rodada de investimentos de US$ 65 milhões, liderada pela Altimeter Capital, com participação da One Investment Management e de outros investidores, entre eles a 1789 Capital, fundo do qual Donald Trump Jr. se tornou sócio depois da eleição de seu pai para um segundo mandato.

O valor específico investido pela 1789 Capital não foi divulgado. Os US$ 65 milhões correspondem ao total captado pela Vulcan naquela rodada, e a participação acionária adquirida pelo fundo continua desconhecida publicamente.

A cronologia, entretanto, é bastante esclarecedora.

Em julho de 2025, representantes da Vulcan se reuniram com a 1789 Capital. Segundo documentos parlamentares, Donald Trump Jr. foi mencionado durante as negociações. Em agosto, o fundo passou a integrar o quadro de investidores da startup. Em setembro ou outubro, a Casa Branca interveio para acelerar a análise do financiamento. No início de novembro, o pacote bilionário foi anunciado. Em 21 de novembro, o Pentágono publicou o compromisso condicional de empréstimo de US$ 620 milhões.

Na época, a Vulcan tinha cerca de 30 funcionários e uma capacidade industrial ainda reduzida. De acordo com informações recuperadas pela ProPublica e pelo Congresso, sua avaliação de mercado, estimada em aproximadamente US$ 250 milhões durante a captação de agosto, passou a ser calculada em torno de US$ 2 bilhões depois do anúncio do financiamento. Ou seja, o anúncio ampliou consideravelmente as perspectivas econômicas da companhia e o valor potencial das participações de seus investidores.

O governo norte-americano também tinha razões industriais para apoiar a fabricação doméstica de ímãs. A China exerce uma posição dominante no processamento de terras raras e na produção de materiais magnéticos, enquanto os Estados Unidos procuram reorganizar cadeias de suprimentos importantes para sua indústria militar e tecnológica.

A Vulcan, por sua vez, já possuía contratos com o Departamento de Defesa antes do empréstimo, inclusive durante o governo Joe Biden. A questão levantada pela investigação é mais específica: por que uma empresa da qual o fundo do filho do presidente acabara de se tornar acionista recebeu um tratamento administrativo considerado excepcional por funcionários do próprio Pentágono?

Peter Navarro, a Casa Branca e as suspeitas de favorecimento

O papel de Peter Navarro é um dos elementos mais relevantes da investigação da ProPublica.

Conselheiro próximo de Donald Trump, Navarro mantém também uma relação pessoal com o filho do presidente. Trump Jr. chegou a visitá-lo durante o período em que esteve preso por descumprir uma intimação do Congresso relativa à investigação sobre a invasão do Capitólio, em janeiro de 2021.

Pouco antes do anúncio do financiamento, Navarro participou do programa apresentado por Trump Jr., no qual os dois discutiram, entre outros assuntos, a disputa com a China pelo domínio das cadeias de terras raras.

A proximidade pessoal ganhou importância diante das informações obtidas pela ProPublica: a iniciativa de obter financiamento para a Vulcan teria partido de Navarro, com determinação para que o Departamento de Defesa acelerasse os procedimentos internos.

A Casa Branca defendeu a operação como parte da estratégia de fortalecimento da segurança nacional e da indústria norte-americana. O Pentágono negou favorecimento político. Representantes de Trump Jr. e da 1789 Capital afirmaram que nenhum deles participou da negociação do empréstimo e que desconheciam os detalhes do processo antes do anúncio público. Navarro também contestou a cobertura da ProPublica.

Essas respostas não eliminaram os questionamentos sobre o processo decisório. Em junho de 2026, parlamentares democratas exigiram explicações formais à Casa Branca. Em agosto, os deputados Jared Huffman e Robert Garcia enviaram uma carta de sete páginas ao CEO da Vulcan, solicitando documentos, comunicações com autoridades e informações sobre a participação da 1789 Capital.

Na carta, os parlamentares afirmam que Maslin havia reconhecido, durante reunião com assessores do Congresso em abril, que o nome de Donald Trump Jr. fora discutido durante as tratativas de investimento. Também questionam a ausência de documentação apresentada sobre procedimentos internos de prevenção à corrupção e conflitos de interesses.

A organização Citizens for Responsibility and Ethics in Washington (CREW) apresentou, em junho, uma representação solicitando investigação ao gabinete jurídico da Casa Branca e à Inspetoria-Geral do Departamento de Defesa.

Até o momento, porém, não há comprovação pública de que Donald Trump Jr. tenha solicitado pessoalmente o financiamento, nem uma conclusão definitiva de autoridade competente estabelecendo ilegalidade na operação.

Mas existe uma intervenção da Casa Branca identificada por uma investigação jornalística independente, uma participação financeira documentada do fundo do filho do presidente e uma cobrança formal de esclarecimentos no Congresso. São fatos suficientemente relevantes para examinar os critérios de utilização de recursos públicos em empresas com relações políticas próximas ao governo.

A ligação com a Bahia e a Energy Fuels

Em 26 de agosto de 2025, poucas semanas depois da entrada da 1789 Capital no quadro de investidores da Vulcan, a empresa anunciou um memorando de entendimento com a Energy Fuels.

O acordo estabelece uma parceria para o fornecimento de óxidos de terras raras, especialmente neodímio-praseodímio e disprósio, utilizados na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, que são destinados  a uma“variedade de aplicações comerciais e de defesa, incluindo satélites, robótica, centros de dados para inteligência artificial, fabricação de semicondutores, drones, sistemas de defesa, veículos elétricos, eletrônicos de consumo, motores industriais e ferramentas elétricas”, como destaca o próprio anúncio.

A Energy Fuels opera a unidade industrial de White Mesa, em Utah, dedicada ao processamento de urânio e terras raras, entre outras atividades. A estratégia da mineradora inclui ampliar o fornecimento de monazita, mineral que contém elementos de terras raras e pode apresentar quantidades relevantes de urânio e tório.

O acordo com a Vulcan prevê a utilização inicial de matérias-primas provenientes de minas na Flórida e na Geórgia, nos próprios Estados Unidos. Após a qualificação técnica dos materiais, as duas companhias pretendiam negociar contratos de fornecimento de longo prazo.

Os minerais extraídos na Bahia, em uma operação que ainda não começou, podem ser destinados futuramente à Vulcan Elements. Afinal já existe a conexão direta e a parceria comercial entre a fabricante de ímãs e a Energy Fuels, que também controla direitos minerários brasileiros. Terras raras, embora não sejam tecnicamente raras, são depósitos de ocorrência limitada e os ativos na Bahia não por acaso entraram em acordos comerciais globais.

Em fevereiro de 2023, a Energy Fuels concluiu a aquisição de 17 concessões minerais entre Prado e Caravelas, no litoral sul da Bahia, por US$ 27,5 milhões. O chamado Projeto Bahia abrange aproximadamente 15 mil hectares e foi apresentado aos investidores como uma futura fonte de monazita para abastecer a unidade industrial de White Mesa.

No comunicado oficial sobre a aquisição, a companhia descreveu expressamente a intenção de utilizar os recursos minerais brasileiros na fabricação de materiais avançados destinados a veículos elétricos, tecnologias de energia e aplicações de defesa.

A conexão industrial entre a Bahia e os Estados Unidos, portanto, faz parte do planejamento da própria mineradora desde 2023.

Na reportagem publicada pelo Observatório da Mineração, o jornalista Lucio Lambranho identificou 41 processos minerários na zona de amortecimento da Reserva Extrativista de Cassurubá. Os dez processos em estágio mais avançado, de requerimento de lavra, pertencem à Energy Fuels Brazil.

A reserva federal, criada em 2009, protege cerca de 100 mil hectares de ecossistemas costeiros, manguezais e territórios utilizados por comunidades extrativistas tradicionais, em uma região ambientalmente sensível do extremo sul baiano.

A investigação também documentou divergências entre órgãos ambientais e minerários sobre a incidência de títulos em áreas protegidas, o licenciamento das atividades e a necessidade de participação do ICMBio.

A ANM reconheceu problemas de sobreposição cartográfica envolvendo três títulos da Energy Fuels e informou ter corrigido as poligonais depois da manifestação do órgão ambiental federal. O Inema, por sua vez, confirmou autorizações para pesquisa mineral e a existência de procedimentos de licenciamento.

Representantes de comunidades indígenas e tradicionais ouvidos pela reportagem manifestaram preocupação com possíveis impactos sobre os recursos hídricos, a biodiversidade e seus territórios.

A Energy Fuels afirmou ao Observatório que suas atividades obedecem à legislação brasileira e aos requisitos ambientais aplicáveis.

O que aparece na documentação é uma cadeia mineral internacional em construção. Depósitos minerais brasileiros sob controle de uma companhia norte-americana, processamento industrial planejado nos Estados Unidos e possíveis fornecedores de matérias-primas para empresas como a Vulcan, que estão recebendo apoio financeiro do governo Trump.

Lula 4 tem a oportunidade concreta de começar a exercer de fato a soberania mineral

Esse caso ajuda a compreender uma contradição recorrente da política brasileira para minerais críticos.

Os Estados Unidos estão mobilizando financiamento público, participação acionária estatal e contratos militares para desenvolver internamente etapas industriais de alto valor agregado. O pacote anunciado para a Vulcan prevê uma futura capacidade de produção de 10 mil toneladas anuais de ímãs, utilizados tanto na indústria civil quanto em equipamentos militares.

No Brasil, uma parte expressiva dos projetos de terras raras permanece controlada por empresas estrangeiras, como publiquei em análise de abril deste ano, cujo planejamento industrial frequentemente prevê exportar concentrados minerais ou intermediários para processamento no exterior.

Assim, as consequências da mineração sobre ecossistemas e comunidades permanecem concentradas nos lugares onde os depósitos são explorados, enquanto parte do valor agregado pode ser produzida e apropriada em outros países.

É essa assimetria que o Projeto Bahia ilustra.

O governo Trump busca ampliar o controle sobre a produção de ímãs, reduzir sua dependência da indústria chinesa e garantir fornecimento para setores estratégicos. A Energy Fuels pretende utilizar depósitos minerais brasileiros para abastecer sua cadeia industrial norte-americana. A Vulcan, parceira comercial da mineradora, integra um programa de fortalecimento da indústria de defesa dos Estados Unidos.

Em setembro de 2026, a empresa anunciou participação no programa SkyFoundry, do Exército norte-americano, voltado à produção doméstica de drones militares. Segundo a Axios, tratava-se do décimo contrato da Vulcan com o Departamento de Defesa. Há um interesse industrial e militar concreto sustentando a estratégia norte-americana.

Enquanto os Estados Unidos mobilizam centenas de milhões de dólares para fortalecer sua indústria de terras raras, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para transformar seu potencial geológico em capacidade tecnológica e industrial própria.

Na Bahia, essa disputa já envolve territórios ambientalmente sensíveis e comunidades tradicionais. Nos Estados Unidos, envolve recursos públicos, contratos militares, investidores privados e possíveis conflitos de interesses no entorno da Presidência. O empréstimo à Vulcan Elements reúne esses elementos em uma mesma cadeia econômica.

A discussão sobre soberania mineral precisa incorporar esse contexto, sempre complexo, multipolar e, não raro, contraditório, que costuma deixar de fora os direitos de povos tradicionais e os impactos socioambientais acumulados, tratados no máximo como um entrave no caminho do sempre propalado “desenvolvimento”. O discurso do presidente reeleito, até aqui, encontra pouco eco na realidade. Mas há novos canais sendo criados, como o comitê previsto na Política Nacional de Minerais Críticos que poderá rever negociações de empresas estrangeiras e analisar criteriosamente projetos em andamento, embora não conte com nenhum assento para a sociedade civil ou representantes de povos impactados.

O governo Lula 4 tem a oportunidade concreta de começar a mudar este cenário desde já. O que certamente não irá acontecer espontaneamente.


Descubra mais sobre Observatório da Mineração

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Compartilhe

Apoie o Observatório

Precisamos do apoio dos nossos leitores para continuar atuando de forma independente e corajosa com jornalismo, pesquisa e incidência em defesa de uma transição energética realmente justa, que não comprometa o presente e o futuro.

Contribua de forma recorrente ou pontual, no valor que preferir, via PIX. Basta agendar o pagamento frequente ou fazer uma doação pontual para o e-mail: apoie@observatoriodamineracao.com.br (conta da Associação Reverbera).

Siga o Observatório nas redes sociais e compartilhe o conteúdo com seus amigos!

E buscamos novos parceiros e financiadores.
Desde que alinhados com o nosso propósito, histórico e perfil.
Leia mais sobre o impacto alcançado até hoje pelo Observatório, as aulas que ministramos e entre em contato.

Matérias relacionadas

A recente aprovação do Projeto de Lei 2780/2024 pelo Senado Federal, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e...

A ascensão de litígios estratégicos em questões climáticas e socioambientais ao redor do mundo, como bem observamos no caso paradigmático...

By Fabio Ishisaki and Maurício Angelo* Financial institutions have had their liability for environmental damages severely weakened by the advent...