Resex de Cassurubá. Foto: Futuri Brasil

Projetos minerais que ameaçam reserva ambiental no sul da Bahia reúnem interesses de filho de Trump, mineradora australiana e empresa vinculada ao Banco Master

O interesse mineral no entorno de uma área de proteção ambiental no sul da Bahia tem 41 processos minerários registrados na Agência Nacional de Mineração (ANM), todos dentro da zona de amortecimento da Reserva Extrativista (RESEX) de Cassurubá.

A unidade de conservação federal de uso sustentável foi criada em junho de 2009 com uma área total de 100 mil hectares distribuídos pelos municípios baianos de Alcobaça, Caravelas e Nova Viçosa. Já a zona de amortecimento onde estão inseridos os processos minerários, ou seja, o entorno da Resex que será impactado pela mineração, que tem uma faixa padrão de 3 quilômetros de raio, é a área responsável por manter a estabilidade e equilíbrio do ecossistema.

A ameaça a esta estabilidade vem principalmente de empresas internacionais. Entres as interessadas em explorar minerais críticos e terras raras na área ambiental estão a Energy Fuels, uma empresa estadunidense vinculada aos interesses do filho de Donald Trump, a El Dorado Goldfields/Liberty Metals, uma mineradora australiana com outros dois projetos no Brasil e uma empresa vinculada ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, a 3D Minerals.

Os dez processos que estão na fase mais avançada de requerimento de lavra pertencem justamente à multinacional americana Energy Fuels Brazil Ltda, enquanto os outros 31 processos ainda estão em etapas de autorização e requerimento de pesquisa, além de 12 deles em disponibilidade, registro de que podem ser negociados pela ANM em novos leilões.

Os títulos minérios são para exploração de titânio, ilmenita, cassiterita, terras raras, argila, areia e cascalho, além de monazita (mineral rico em elementos de terras raras e urânio) que podem ser retirados das areias do litoral sul baiano.

A Resex, que pode ter que conviver com intensa extração mineral, faz parte do mosaico de unidades de conservação do extremo sul da Bahia e do corredor central da Mata Atlântica, uma região rica em biodiversidade acompanhada por outras unidades de conservação, como o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, os parques nacionais do Descobrimento, Monte Pascoal e Pau Brasil, as Resex de Corumbau e Canavieiras, a APA da Ponta da Baleia e diversas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs).

Os dados destes processos fazem parte de uma informação técnica registrada em julho de 2025 pela Gerência Regional Nordeste do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e endereçado à Superintendência de Outorga de Títulos Minerários da (ANM).

O documento foi instruído pela Informação Técnica nº 25/2025-ICMBio Abrolhos, elaborada no âmbito do atendimento a uma Notícia de Fato instaurada pelo Ministério Público Federal (MPF) para apurar a legalidade destes processos.

Esta análise preliminar do órgão ambiental alertava para a sobreposição parcial de três títulos minerários pertencentes à empresa Energy Fuels Brazil Ltda, com o perímetro interno dentro da Resex de Cassurubá.

O caso foi registrado pelo jornal O Globo, mas sem o detalhamento da extensão dos processos da Energy Fuels e dos demais processos na zona de amortecimento da reserva.

Em resposta às consultas formuladas pelo órgão ambiental, a ANM informou que os indícios de sobreposição decorriam do aprimoramento na precisão dos dados geoespaciais e cartográficos da unidade de conservação.

Para solucionar a inconsistência e somente após o pedido do órgão ambiental federal, a agência executou novos estudos técnicos de retirada de interferência, promovendo o recorte topográfico das poligonais, o que eliminou o avanço direto dos processos da Energy Fuels sobre o território protegido.

Sobre os demais processos da empresa citados pelo ICMBio e que estão dentro da zona de amortecimento, a ANM informou à reportagem do Observatório da Mineração que não há problema, pois “não há proibição” e que a agência concede permissão de lavra “caso o empreendedor atenda aos requisitos”. “Contudo, o minerador ainda precisa obter licença junto aos órgãos ambientais para estar apto a iniciar a atividade extrativa”, diz a ANM.

No mesmo procedimento administrativo, a ANM e o ICMBio registraram que a mineradora informou estar realizando estudos preliminares para licenciamento ambiental junto ao Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (INEMA), contudo nenhuma licença ambiental foi efetivamente apresentada até o momento para os processos em fase de requerimento de lavra.

No caso dos processos minerários que afetam a reserva e sua zona de amortecimento, a análise do Núcleo de Gestão Integrada do ICMBio, responsável por administrar unidades de conservação federais na região de Abrolhos, sediado em Caravelas, destaca a resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama n° 428/2010).

Pela norma, o Estudo de Impacto Ambiental e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) só poderão ser concedidos após autorização do órgão responsável pela administração da unidade de conservação.

No documento, a ANM confirma em resposta ao ICMBio que “até o momento não foi emitida qualquer manifestação em processo de licenciamento ambiental que tivesse como objetivo a exploração de terras raras na Zona de Amortecimento da Unidade de Conservação”.

Comunidade que luta para proteger a área vê com preocupação o avanço da mineração

A liberação para o começo dos empreendimentos minerários nesta região pode eliminar o esforço da comunidade local para proteger as áreas. A criação da unidade resultou de um processo de organização e mobilização comunitária iniciado entre 2003 e 2005 por pescadores artesanais, marisqueiras e moradores ribeirinhos da região estuarina.

O principal fator impulsionador da mobilização foi a ameaça de implantação de um projeto de carcinicultura empresarial pela Cooperativa dos Produtores de Camarão do Extremo Sul da Bahia (Coopex), que pretendia instalar uma fazenda de 1.500 hectares de tanques de camarão entre os rios Macaco e Massangano.

Para conter o desmatamento de áreas de manguezal e restinga, a invasão dos territórios de pesca e proteger os recursos dos quais dependiam, as comunidades locais uniram-se a organizações ambientalistas (como a Conservação Internacional, o Movimento Cultural Arte Manha e o Instituto Baleia Jubarte) e a lideranças de reservas vizinhas. Esse movimento culminou na aprovação popular durante a consulta pública em maio de 2007 e na decretação oficial da Resex em 2009.

A importância ambiental de Cassurubá está na preservação de cerca de 11 mil hectares de manguezais, fundamentais para a manutenção dos aquíferos, proteção da linha de costa e retenção de sedimentos e tem conexão ecológica direta com o Complexo Recifal dos Abrolhos, onde atua como berçário e área de alimentação para espécies marinhas e aves migratórias.

Além da preservação ambiental, a unidade assegura o direito territorial e os modos de vida tradicionais de centenas de famílias que garantem sua subsistência e geração de renda por meio do extrativismo sustentável do camarão, do caranguejo-uçá, do guaiamum, de peixes e de variadas espécies de mariscos.

Os ativistas Alê Okan e Ludimilla Teixeira foram os primeiros a denunciar a atuação da multinacional Energy Fuels no sul da Bahia após identificarem a empresa como uma das patrocinadoras da 4ª Conferência Estadual do Meio Ambiente, em Salvador.

A partir dessa descoberta, o casal investigou o histórico de aquisições de direitos minerários realizado entre os municípios de Prado e Caravelas a partir de 2022 e formalizou representações junto ao Ministério Público Federal (MPF) e Ministério Público da Bahia para tentar conter o avanço da mineração sobre terras tradicionais e áreas de retomada por povos indígenas.

O casal também passou a publicar vídeos nas redes sociais denunciando que projetos de infraestrutura e logística regional visavam atender ao escoamento de minérios previsto no “Projeto Bahia”, o que resultou em reações judiciais por parte de lideranças da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM) quando eles questionaram o projeto da estatal, Bahia de Todos os Minérios.

Os representantes do coletivo criticam o alinhamento entre o poder público local e as mineradoras multinacionais, alertando para a perda de soberania e a desestruturação das comunidades locais. “Governos que dizem que fazem uma representação da classe trabalhadora, das comunidades tradicionais, e, na verdade, o alinhamento é com grandes empresas multinacionais. E nós nos tornamos uma zona de sacrifício”, dizem. 

Segundo os ativistas, a entrega do território para a exploração de terras raras não se trata de uma ação isolada, mas de uma política continuada que transforma áreas de subsistência e preservação ambiental em zonas sacrificadas para o mercado mineral internacional.

Em resposta à reportagem a CBPM informa que “não possui qualquer vínculo ou participação no projeto em questão”.

Foto: Futuri Brasil

Lideranças indígenas já sentem efeitos da mineração, rejeitam novos projetos e preveem “pandemônio” em áreas já conflagradas por conflitos agrários

Dário Neves, liderança Aldeia Kaí, comunidade indígena inserida com cerca de 20% de sua área no Parque do Descobrimento e na Resex de Corumbau, avalia que os impactos negativos da mineração já atingem a região, especialmente sobre o rio Cahy, o principal da região e conhecido historicamente como o local onde aconteceu o primeiro contato entre os portugueses e os indígenas.

“Os impactos já estão acontecendo. É a degradação do meio ambiente, os rios e as nascentes estão secando”, diz.

A liderança local atribui os problemas no rio à mineração que já existe no entorno do Parque Nacional do Descobrimento e que também deixaram os lençóis freáticos prejudicados. “Isso vem da mineração, de areia monazítica, que da outra vez deixou um estrago, na verdade, em todo o nosso território. A praia ficou toda cheia de buraco. Graças a Deus, a natureza repôs e a areia voltou”, explica Neves.

Segundo a liderança, a comunidade já está sentindo os efeitos da degradação ambiental nas mudanças no Rio Cahy, um dos rios maiores na região de Cumuruxatiba. Quando a barra do rio fecha, a comunidade tem que ir lá fazer esse trabalho, junto com os pescadores, da Resex do Curumbau, de abrir e evitar a mortandade dos peixes.

“A própria natureza hoje está sem força até para poder fazer o seu trabalho, que ela mesma abria as barras quando enchia demais. E hoje não está tendo mais essa força de abrir por conta da devastação que está no lençol freático, nas nascentes dos rios” lamenta.

Marcley Souza Pataxó, secretário executivo de Comunicação e Mobilização do Movimento Unificado dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba), classifica a possibilidade de novos empreendimentos minerários no extremo sul da Bahia como um “pandemônio”.

Pataxó avalia que, considerando outros casos como a mineração no Oeste da Bahia e no Vale do Jequitinhonha, a criação de novos projetos minerários traz vários pontos negativos, além da ausência até agora da consulta às comunidades locais.

“A insegurança jurídica que a gente tem a partir da instalação de uma mineração em terra indígena é algo perigosíssimo. Até porque a Constituição não prevê isso. Não pode haver mineração, salvo casos muito específicos, mas tem que haver a consulta prévia, livre e informada. E isso não aconteceu em nenhum momento”, diz.

Outra preocupação do Mupoiba é que com novos projetos de mineração, a região, já cercada de sobreposições de terras, pode ter seus conflitos fundiários ampliados. A Terra Indígena Comexatibá (também conhecida como Cahy-Pequi), localizada no município de Prado, teve sua posse permanente declarada pelo governo federal, mas segue em processo de conflito fundiário pela efetiva demarcação física. A área de 28 mil hectares teve sua posse definida pelo governo federal em novembro de 2025.

“A gente vive uma disputa muito grande, sobretudo com as sobreposições, com os fazendeiros. Com ataques, mortes, conflitos e milícias armadas para tentar intimidar os povos da região”, lembra a liderança. “Então se a gente coloca uma empresa de fora também, com todo esse cenário e com todo esse contexto que eles já vivem, mas também interesse do grande capital sobre essas áreas, a gente terá um cenário de conflito muito mais acirrado”, prevê.

Para Marcley Pataxó, as comunidades locais indígenas vão resistir ao avanço das mineradoras. “Dificilmente vão aceitar a presença de bom grado, então vai haver incidência junto a órgãos públicos. A gente vai viver uma cena de disputa muito grande e traz um ator igualmente perigoso para o nosso território”, afirma.

A Energy Fuels informa que mantém “um compromisso de longo prazo no Brasil”. E que, desde a aquisição do projeto na Bahia, tem o compromisso de conduzir suas atividades “em conformidade com a legislação brasileira e as normas ambientais aplicáveis”. A empresa ressalta o respaldo do Inema em 2025 para a realização de sondagens de pesquisa mineral. “Respeitamos o arcabouço legal e regulatório do Brasil e continuaremos cumprindo com suas exigências, hoje e no futuro”, alega a empresa.

A empresa diz ainda que o trabalho na Bahia é orientado pelas exigências ambientais e sociais brasileiras. “Dentro desse contexto, adotamos práticas de excelência em gestão ambiental e engajamento com as comunidades locais, buscando minimizar o impacto ambiental e garantir que as comunidades vizinhas compartilhem dos benefícios do projeto. Para complementar essas exigências, seguimos diretrizes reconhecidas internacionalmente — como as da International Finance Corporation (IFC) e da Global Reporting Initiative (GRI)”, diz o comunicado.

Foto: Mar Sem Fim

Liberação para pesquisas e licenciamento para extração em andamento sem consulta ao ICMBio 

O Inema, por enquanto, parece não levar em conta os interesses das comunidades locais. O órgão ambiental baiano informa que foram identificados três processos relacionados à pesquisa mineral no território da Área de Proteção Ambiental (APA) Ponta da Baleia/Abrolhos, que abrange os municípios de Alcobaça, Caravelas, Nova Viçosa e Prado ao ser questionado se emitiu licenças em nome da Energy Fuels

Entre eles, diz o Inema, consta uma autorização ambiental concedida em novembro de 2025 para a realização de pesquisa mineral. No mesmo período, foi requerida uma licença prévia para o projeto de mineração denominado Projeto Bahia, destinado à exploração de minerais pesados (terras raras) em areia. “O processo de licenciamento, sob nº 2025.001.009094/INEMA/LIC-09094, ainda não foi submetido a análise técnica”, diz o Inema sobre o pedido da empresa estrangeira para iniciar a extração mineral.

Em 2026, segundo o Inema, foi concedida uma nova autorização ambiental, por meio da Portaria Inema nº 35.504/2026, para a realização de furos de sondagem, com o objetivo de pesquisar depósitos de areias com minerais pesados, incluindo titânio, zircônio e elementos terras raras, no município de Caravelas.

O órgão ambiental estadual acredita que não é necessário consultar o ICMBio e a administração da Resex para emitir as três licenças e que a competência para o licenciamento ambiental pode ser dos municípios, do Estado ou da União. Alega que suas licenças não estão dentro da área de influência da unidade de conservação.

“Em relação à consulta ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Inema esclarece que não houve necessidade de manifestação do órgão federal no âmbito dos processos de autorização ambiental para pesquisa mineral, uma vez que as Áreas Diretamente Afetadas (ADAs) pelos projetos não estão inseridas em áreas de Reserva Extrativista (Resex)”, diz o Inema.

ICMBio ratifica nova lei de licenciamento, norma que está sendo contestada no STF, e que exclui obrigação de consulta ao órgão federal

Procurado pelo Observatório da Mineração, o ICMBio informou em nota que no interior da Resex de Cassurubá, a exploração mineral é proibida, nos termos da Lei nº 9.985/2000 e do Plano de Manejo da Unidade de Conservação.

Mas destaca que quanto aos processos na zona de amortecimento, como nos 41 títulos citados no levantamento enviado à ANM, deverá ser comprovada sua viabilidade técnica e ambiental, devendo ser consultado o ICMBio sobre o Termo de Referência e os estudos ambientais, nos termos da Lei nº 15.190/2025 (Lei Geral do Licenciamento Ambiental).

E que quando a Área Diretamente Afetada (ADA) de empreendimento minerário incidir sobre unidade de conservação ou sua zona de amortecimento, exceto Área de Proteção Ambiental (APA), o empreendimento deverá ser submetido ao licenciamento ambiental perante o órgão ambiental competente e observar os procedimentos junto à Agência Nacional de Mineração (ANM).

“O órgão licenciador deverá solicitar manifestação do ICMBio nos casos que envolvam unidades de conservação federais ou suas zonas de amortecimento, nos termos da Lei nº 15.190/2025”, informa o órgão federal.

Ao citar a nova legislação federal aprovada em 2025, e que coincide em parte com as respostas do órgão ambiental da Bahia, o ICMBio acaba validando as novas regras que estão sendo contestadas desde dezembro do ano passado por uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF).

A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7919, proposta pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), trata, entre outros pontos considerados inconstitucionais, da flexibilização da consulta que envolvem unidades de conservação antes do licenciamento.

A nova norma exclui do licenciamento ambiental de acordo com a ADI, “tanto os impactos indiretos como os impactos diretos decorrentes de empreendimentos sobre essas áreas protegidas”.

Além disso, informa a ação, a manifestação dessa autoridade envolvida passa a não ter mais caráter vinculante e a licença ambiental pode ser concedida mesmo com a desaprovação do empreendimento pela autoridade envolvida competente. E mais: condicionantes determinadas pelo ICMBio ou o gestor destas unidades poderão ser desconsideradas pela autoridade licenciadora.

Havia na legislação a obrigatoriedade de autorização, argumenta a ADI, para o prosseguimento do licenciamento ambiental de empreendimentos e o assunto ainda é regulado pela resolução Conama nº 428/2010, a mesma citada pelos técnicos do ICMBio no documento enviado à ANM.

“Em outras palavras: a Lei nº 15.190/2025 (artigos 43, III, 44, III e 61) exclui a necessidade de autorização do órgão gestor de Unidades de Conservação, enquanto toda a legislação até agora determinava a obrigação de obtenção da ALA (Autorização para o Licenciamento Ambiental. Assim, a novel lei é flagrantemente inconstitucional, ao passo que enfraquece o dever do Poder Público em proteger o meio ambiente”, diz a ação que foi articulada pelo Observatório do Clima (OC) junto ao PSOL e à Apib.

A ADI, que ainda não tem uma decisão na relatoria do ministro Alexandre de Moraes, também é assinada outras organizações da sociedade civil na área ambiental, Greenpeace Brasil, ISA, WWF-Brasil, Alternativa Terrazul, Arayara, Alana, Conectas, IDC, Conaq, SOS Mata Atlântica e Avaaz.

Foto: Mar Sem Fim

Empresa vinculada ao banco Master tem título na zona de amortecimento

Dentre os trinta e um processos adicionais mapeados na zona de amortecimento da Resex Cassurubá está um requerimento de autorização de pesquisa de 2024 em nome da 3D Minerals Ltda. A empresa faz parte dos negócios de Daniel Vorcaro, do Banco Master e da sua rede de empresas e parceiros na mineração.

O pedido da 3D tem 1.923 hectares no município de Alcobaça para a busca de cassiterita e minério de titânio. A empresa formalizou o requerimento e o pagamento de taxas no final de 2024, obtendo a minuta e a outorga do alvará de pesquisa emitido pela ANM em junho de 2025.

Conforme investigação publicada pelo Observatório da Mineração, a 3D Minerals acumula 311 processos na ANM, dos quais 60 incidem diretamente sobre territórios de assentamentos da reforma agrária gerenciados pelo Incra em diversos estados do país, com destaque para 29 processos no Mato Grosso e 25 no Pará, além de registros na Bahia, Rondônia e Tocantins.

Em 43 desses requerimentos, a empresa obteve autorização para pesquisar minerais críticos — como terras raras, fosfato, níquel, manganês, cobre, ouro e ferro — em áreas dedicadas à agricultura familiar. A entrada da mineração nesses locais foi aberta na Instrução Normativa 112/2021 do Incra, que dispensa a obrigatoriedade de consulta prévia, livre e informada às comunidades assentadas e é contestada por uma ação civil pública da Defensoria Pública da União no TRF1, sob forte rejeição de moradores e lideranças rurais.

Procurada pela reportagem desde o dia 16, a 3D não respondeu aos pedidos de esclarecimentos sobre o processo registrado na área da Resex.

A conexão geopolítica: Energy Fuels, Flávio Bolsonaro e Donald Trump Jr.

Enquanto a 3D Minerals vincula seu interesse mineral à rede empresarial da maior fraude do setor bancário nacional e a conflitos agrários, a Energy Fuels insere o litoral sul da Bahia em uma complexa engrenagem econômica e geopolítica internacional.

Investigação conduzida pelo jornalista Paulo Motoryn, publicada na newsletter Noites Húngaras em parceria com o canal Amado Mundo, revelou que os direitos minerais adquiridos pela mineradora na Bahia estão associados a redes financeiras conservadoras norte-americanas e a articulações políticas ligadas ao senador Flávio Bolsonaro.

A multinacional Energy Fuels comprou 17 concessões minerais no sul da Bahia por US$ 27,5 milhões entre Prado e Caravelas, somando 19 processos ativos na ANM que abrangem ilmenita, rutilo, zircão e monazita.

Em comunicados encaminhados ao mercado financeiro e à SEC nos Estados Unidos, a mineradora declarou abertamente que seu interesse primário é a extração de monazita — mineral rico em terras raras e urânio —, com a finalidade de enviar o concentrado processado para sua usina de White Mesa, em Utah, alimentando a cadeia industrial e de defesa norte-americana.

A ponte geopolítica ganha corpo através do fundo de investimento 1789 Capital, criado por integrantes da rede Rockbridge Network e que conta com Donald Trump Jr. como sócio. Em agosto de 2025, o fundo aportou US$ 65 milhões na Vulcan Elements, fabricante norte-americana de ímãs de terras raras para tecnologia e defesa, que em seguida assinou um memorando com a Energy Fuels para o desenvolvimento de uma cadeia de suprimentos de minerais críticos independente da China.

Na esfera política brasileira, articuladores ligados à Rockbridge atuaram diretamente na organização da infraestrutura do comitê de campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, e aliados elaboraram memorandos defendendo o alinhamento estratégico do Brasil aos Estados Unidos e a aceleração do licenciamento minerário.

Essa formulação converge diretamente com o discurso público do senador Flávio Bolsonaro, que, antes de fugir do Brasil após perder a eleição, com medo de ser punido em investigações em curso sobre seus crimes, declarou na CPAC ser o Brasil a solução para os Estados Unidos superarem a dependência chinesa em terras raras, conectando as diretrizes políticas locais aos projetos de exploração minerária que incidem no litoral baiano e no entorno da RESEX Cassurubá.

Mineradora australiana também tem dois processos na área da Resex

Na documentação oficial do ICMBi, constam dois processos minerários ativos registrados em nome da RTB Geologia e Mineração incidentes também na zona de amortecimento da Resex de Cassurubá: os processos de número 870055/2025 e 870057/2025. O primeiro está na fase de autorização de pesquisa, enquanto o segundo está registrado na fase de requerimento de pesquisa, ambos tendo como substância declarada a ilmenita (minério de titânio).

A inclusão dessas áreas na listagem do levantamento técnico feito pela equipe do NGI ICMBio Abrolhos evidencia que a faixa de entorno da unidade de conservação continua sob forte pressão do setor extrativo internacional.

Apesar de formalmente constarem em nome da RTB no sistema da ANM, o ativo mineral integra a reestruturação e a expansão de direitos sobre areias pesadas e terras raras associados à Liberty Metals (grupo ligado às operações corporativas da El Dorado Goldfields) a partir de 2025.

As autorizações de pesquisa concedidas pela Agência Nacional de Mineração (ANM) para as duas áreas em nome da RTB Geologia e Mineração Ltda. no município de Alcobaça possuem datas oficiais de publicação e prazos distintos de vigência.

O processo nº 870.055/2025, que abrange uma área de 1.831 hectares, teve o Alvará de Pesquisa nº 3104 outorgado e publicado no Diário Oficial em 23 de abril de 2025, estabelecendo uma vigência de três anos com vencimento em 23 de abril de 2028.

Por sua vez, o processo nº 870.057/2025, cobrindo 1.671 hectares, teve o Alvará de Pesquisa nº 4442 publicado em 16 de junho de 2026, com vigência igualmente fixada em três anos e validade até 16 de junho de 2029.

Em comunicado oficial divulgado ao mercado financeiro em outubro de 2025, a mineradora australiana Liberty Metals — que posteriormente propôs alterar sua razão social para El Dorado Goldfields — anunciou a aquisição do projeto de terras raras e areias de minerais pesados de Alcobaça, englobando três títulos minerários ao longo da costa do sul da Bahia que somam 55 km² (5.500 hectares) de extensão.

O empreendimento foca na prospecção de ilmenita, rutilo, zircão e monazita. O principal motor estratégico indicado pela companhia é o elevado potencial de monazita, mineral fonte dos chamados “metais magnéticos” (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio), indispensáveis para a fabricação de ímãs permanentes de alta performance utilizados na indústria de veículos elétricos e em turbinas eólicas.

No mesmo comunicado e em apresentações a investidores, o presidente não-executivo da mineradora, Nicholas Katris, destacou que a consolidação dos ativos brasileiros posiciona a empresa em uma jurisdição de mineração de nível 1, alinhando suas operações à estratégia dos Estados Unidos e de nações ocidentais para assegurar e fortalecer cadeias globais de suprimento transparentes de minerais críticos.

Em relação às dimensões territoriais, os dois processos registados na ANM somam uma extensão conjunta de 3.502,38 hectares no município de Alcobaça. No contexto mais amplo do portfólio mineral vinculado ao grupo australiano, o chamado “Projeto Alcobaça” cobre uma área total de 55 km² (5.500 hectares) ao longo da faixa litorânea baiana, situando-se em posição vizinha às concessões da multinacional de minerais pesados Energy Fuels.

A mineradora australiana titular desses ativos, originalmente negociada na Bolsa de Valores da Austrália (ASX) sob a razão social Liberty Metals Limited, anunciou em 1º de setembro de 2026 a proposta formal de alteração de seu nome corporativo para El Dorado Goldfields Ltd (adotando o novo código EDO).

A mudança de marca foi motivada pela aquisição dos projetos auríferos Oko North e Oko South na Guiana, mantendo simultaneamente em sua estrutura corporativa os projetos de terras raras e areias pesadas no Brasil (Alcobaça na Bahia, Paraíba e Rio Grande do Sul).

Procuradas pela reportagem, a empresa multinacional australiana e a RTB Geologia não responderam os pedidos de esclarecimentos enviados pela reportagem desde o começo desta semana. O espaço continua aberto para suas manifestações.

Leia a íntegra das respostas recebidas da Energy Fuels, ANM, ICMBio e Inema.


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