A primeira análise compreensiva dos fluxos financeiros para o agronegócio e a mineração de minerais de transição, revela impactos crescentes de instituições financeiras sobre a biodiversidade
As maiores instituições financeiras do mundo continuam financiando empresas que impulsionam o desmatamento tropical, a destruição de ecossistemas e violações dos direitos humanos, ao mesmo tempo em que não adotam salvaguardas capazes de prevenir esses danos, segundo um importante novo relatório divulgado pela coalizão Florestas & Finanças, rede que o Observatório da Mineração faz parte.
Publicado durante a conferência dos Princípios para o Investimento Responsável (PRI) da ONU, em Amsterdã, o Bancando o Colapso da Biodiversidade 2026 analisa o financiamento de empresas que operam nas regiões de florestas tropicais e destaca a necessidade urgente de conectar as decisões de financiamento aos impactos no mundo real e de fechar a lacuna de responsabilização que permite aos bancos continuar financiando danos socioambientais.
Pela primeira vez, o relatório anual da coalizão analisa o financiamento da mineração de metais/minerais nas bacias de florestas tropicais, refletindo a rápida expansão da produção de níquel, lítio, cobalto e cobre para algumas das regiões de maior biodiversidade do mundo.
O relatório deste ano, disponível enquanto os governos se reúnem na Armênia para a Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP17), também amplia seu foco para incluir café e cacau como commodities associadas ao risco desmatamento. O relatório argumenta que os bancos estão financiando cada vez mais dois dos maiores vetores da perda de biodiversidade — a agricultura industrial e a mineração em larga escala — sem exigir salvaguardas que protejam adequadamente as florestas, as águas, bem como os direitos dos Povos Indígenas e das comunidades tradicionais.
“Florestas, rios e recifes não são elementos opcionais — são os sistemas de suporte dos quais dependem a economia e a própria vida. Mas os bancos estão financiando seu colapso mesmo assim”, disse Stephanie Dowlen, Campaigner Sênior de Florestas da Rainforest Action Network. “Precisamos fechar a lacuna de responsabilização e construir sistemas alimentares e energéticos que possam realmente funcionar no longo prazo, e não sistemas que destruam as bases das quais todos dependemos.”

Entre as conclusões do relatório:
● Desde 2020, os bancos destinaram US$ 595 bilhões a empresas que operam em setores de alto risco nas regiões tropicais, incluindo commodities agrícolas e a mineração de metais e minerais.
● Pela primeira vez neste relatório, a Florestas & Finanças documenta US$ 363 bilhões em financiamento bancário para a mineração de metais/minerais em regiões de florestas tropicais desde 2016.
● O financiamento para a mineração de metais e minerais em países ricos em florestas tropicais registrou um aumento expressivo — um crescimento de 55% desde o Acordo de Paris —, passando de US$ 23,7 bilhões em 2016 para US$ 36,7 bilhões em 2025. Entre 2016 e 2025, o financiamento para o lítio cresceu 1.113%, atingindo US$ 2,0 bilhões; o do níquel aumentou 183%, chegando a US$ 1,6 bilhão; e o do cobre subiu 42%, alcançando US$ 20,6 bilhões.
● A pontuação média das políticas bancárias que regulamentam o financiamento de commodities agrícolas associadas ao risco desmatamento permanece em apenas 25%, revelando grandes lacunas nos compromissos públicos com a proteção dos direitos humanos e da biodiversidade.
● O relatório documenta a continuidade do financiamento de empresas que operam em setores associados ao desmatamento, à destruição de turfeiras, aos incêndios, à poluição e à violação dos direitos dos Povos Indígenas na América do Sul, no Sudeste Asiático e na África Central e Ocidental.
● Café e cacau foram adicionados à avaliação anual da coalizão, refletindo a crescente preocupação com o desmatamento e os abusos trabalhistas associados a esses setores.
O relatório é divulgado enquanto os governos se preparam para avaliar a implementação do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal na COP17. “Os países se comprometeram a alinhar os fluxos financeiros públicos e privados às metas de biodiversidade. Com os atuais compromissos voluntários fracos das instituições financeiras, eles não vão cumprir essa meta. As instituições financeiras precisam fortalecer suas políticas e os governos precisam aumentar a regulamentação para garantir que os fluxos financeiros estejam alinhados”, disse Merel van der Mark, coordenadora da Coalizão Florestas & Finanças.
Para Maurício Angelo, diretor executivo do Observatório da Mineração, o relatório revela o descompasso entre a narrativa do setor mineral, que passou a se apresentar como imprescindível para o enfrentamento da crise climática do planeta, em uma guinada “verde”, e a realidade que mostra estas mesmas empresas como responsáveis pelo colapso da biodiversidade essencial para a estabilidade climática do mundo.
“O volume de recursos recebido por mineradoras identificado pela pesquisa mostra que o mercado financeiro falha gravemente em exigir a devida diligência mínima de empresas com gigantescos passivos socioambientais em todo o mundo, aceitando o greenwashing e financiando diretamente a expansão de minerais críticos. Isso contribui para impactos em série, o agravamento da desigualdade e a quebra de todos os tratados, metas e objetivos assumidos para enfrentar as mudanças climáticas. Estamos na contramão, apostando na aceleração da crise e não no seu enfrentamento”, afirma Angelo.

Folha: Bancos emprestam US$ 595 bilhões a empresas ligadas ao desmatamento
Reuters: Banks lend nearly $600 billion to firms posing threats to tropical forests, environmental groups say
O relatório destaca vários riscos emergentes entre os setores.
No Brasil, os bancos continuam financiando grandes comerciantes de soja após o colapso da Moratória da Soja da Amazônia no início deste ano, enfraquecendo um dos acordos voluntários de proteção florestal mais bem-sucedidos do mundo. Na Indonésia, o financiamento continua apoiando modelos de plantação associados ao desmatamento, à drenagem de turfeiras e a incêndios cada vez mais severos que cobriram o Sudeste Asiático com uma fumaça tóxica em 2026.
Ao mesmo tempo, a demanda por minerais está acelerando rapidamente à medida que governos e empresas buscam promover a transição energética global e expandir a infraestrutura de inteligência artificial. O relatório alerta que, sem salvaguardas mais fortes, a corrida para garantir o fornecimento de níquel, lítio, cobalto e outros minerais corre o risco de repetir muitos dos mesmos fracassos ambientais e sociais que acompanharam a expansão agrícola para as florestas tropicais.
A rápida expansão de operações de mineração de alto risco em regiões de florestas tropicais está alimentando uma nova onda de destruição, à medida que comunidades enfrentam apropriação de terras e contaminação generalizada, trabalhadores sofrem condições perigosas e florestas são desmatadas, muitas vezes sob o pretexto de uma transição “verde” e “limpa”. As instituições financeiras são responsáveis pela devida diligência em relação a seus clientes e devem ser responsabilizadas pelas violações dos direitos humanos para as quais tenham facilitado o financiamento.
A coalizão pede aos governos que participarão da COP17 que fortaleçam as regulamentações financeiras, que exijam que bancos e investidores realizem uma devida diligência robusta em matéria de biodiversidade e direitos humanos, melhorem a transparência sobre o financiamento de setores de alto risco e responsabilizem as instituições financeiras quando seu financiamento contribuir para a destruição ambiental ou para violações de direitos.
Também pedem aos bancos que fortaleçam políticas que proíbam o financiamento de desmatamento ou conversão de áreas, o desenvolvimento de turfeiras e a exploração de pessoas (políticas NDPE na sigla em inglês), verifiquem de forma independente o cumprimento dessas exigências por parte dos clientes e encerrem relações de financiamento com empresas que violem repetidamente esses padrões.
O relatório Bancando o Colapso da Biodiversidade está disponível (em inglês) no site da Forest & Finance. Faça o download do material completo.
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