Mineração da Empabra na Serra do Curral. Foto: Léo Boi/CBH Velhas Divulgação

PF conecta “lavanderia” das esposas de servidores da ANM com “quem mandava” nas fraudes de extração mineral ilegal na Serra do Curral

As investigações da Polícia Federal (PF) na Operação Parcours revelaram uma sequência de novas provas que indicam um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo dois servidores da Agência Nacional de Mineração (ANM): o então gerente regional da ANM em Minas Gerais, Leandro Cesar Ferreira de Carvalho, e o superintendente substituto de segurança de Barragens de Mineração, Claudinei Oliveira Cruz.

A análise do material apreendido também mostra as conexões de Carvalho com Lucas Kallas, empresário apontado com o mentor das fraudes que produziu a “distopia ambiental” na extração ilegal de minério de ferro na mina Corumi na Serra do Curral em Belo Horizonte. E a relação dos dois servidores da agência reguladora com Luis Fernando Franceschini da Rosa, apontado como o principal gestor e controlador do grupo econômico que reúne Empabra, Green Metals e Fides, por meio de um intermediário do esquema de crimes investigados pela PF. 

Os dois servidores foram afastados dos seus cargos, como revelou o Observatório da Mineração em maio de 2025, com base em dois relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) envolvendo movimentações suspeitas das suas esposas. No caso de Leandro Cesar, movimentações atípicas de mais de R$ 2 milhões e no de Claudinei, de R$ 1,1 milhão.

O relatório da PF aprofunda a participação das companheiras dos dois investigados, tanto que ambas foram agora indiciadas por lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Janaísa Dias Mendes, esposa de Carvalho, é identificada como estudante e sem renda formal compatível com os milhões que movimentava em sua conta pessoal, servindo de anteparo para as vantagens recebidas pelo marido. A investigação destaca que os aparelhos do servidor tinham pouco conteúdo, sugerindo o uso de mensagens temporárias para “autoproteção e preocupação com monitoramento estatal” e que devem “ser valorados no contexto de movimentações financeiras incompatíveis e de suspeita de favorecimento de mineradoras”.

Num dos trechos do documento em que detalha as ações do casal, a PF informa que numa conversa entre Carvalho e Janaísa em fevereiro de 2025, o gerente regional da ANM diz que está em Brasília “correndo atrás de deputados” para conseguir uma vaga na diretoria colegiada da agência reguladora. Neste trecho da conversa, ele diz para a esposa ter conversado com “Calas”, uma referência que a PF conecta a Lucas Kallas. Na mesma mensagem, ele diz que o empresário era “quem mandava” e teria prometido ajudá-lo a conseguir o novo posto na ANM.

A aquisição de um imóvel de luxo em Belo Horizonte é o principal indício de lavagem de capitais do núcleo de Carvalho. O casal comprou um apartamento em março de 2023 no Edifício La Pienezza, empreendimento de alto padrão no bairro Cruzeiro por R$ 2,9 milhões, tendo quitado mais de R$ 1,2 milhão em maio de 2025. Além do valor do imóvel, Janaísa negociou personalizações e mobiliário de alto padrão, totalizando mais de R$ 700.000,00, informando expressamente aos fornecedores que o “pagamento seria à vista e em dinheiro” para obter descontos.

O consumo de bens de luxo por Janaísa reforça a disparidade entre a renda declarada do servidor e a realidade financeira da família. Ela era tratada como “cliente VIP” em joalherias, onde negociava peças como uma pulseira de R$ 23.438,00, além de realizar viagens internacionais para destinos como Miami. Documentos bancários revelaram que a conta de Janaísa chegou a receber um único depósito em espécie de R$ 180 mil em janeiro de 2025, valor que, somado a outros créditos, elevou seu saldo para mais de R$ 461 mil.

Já o servidor Claudinei Oliveira Cruz utilizava sua esposa, Kelly Cristina Bonifácio Oliveira Cruz, e a empresa familiar Casa-Escola Organiza como principais veículos para a movimentação de recursos ilícitos, segundo a PF. A investigação aponta que a Organiza funcionava como uma “conta de passagem” para dar aparência lícita aos valores, apresentando um fluxo financeiro totalmente incompatível com sua atividade econômica, como em outubro de 2023, quando a conta registrou “entradas de R$ 154.223,02 e saídas de R$ 136.734,60”, apesar de a empresa possuir dívidas e operar formalmente no prejuízo.

A guarda de grandes quantias em dinheiro vivo na residência do casal era uma prática comum identificada por meio de interceptações telemáticas. Em uma das mensagens, Claudinei orientou a esposa a “retirar dinheiro guardado no guarda-roupas” para realizar depósitos, enquanto outro registro visual no celular de Kelly mostrou um “maço de dinheiro preso por elástico no interior de uma bolsa”. Para evitar detecção, o casal adotava códigos como “vidros de limpeza” (cada vidro equivaleria a R$ 10 mil) e “blocos” para se referir a montantes que chegaram a somar R$ 129.700,00 guardados na sede da empresa.

Para internalizar esses valores no sistema bancário, o casal utilizava o pagamento de boletos de despesas pessoais com dinheiro em espécie. Claudinei chegou a pedir expressamente que Kelly emitisse boletos de R$ 5.000,00 para serem pagos em lotéricas com o objetivo de “ir desovando o que tá aqui em casa”. Esse método permitia que o casal mantivesse um padrão de vida luxuoso, com gastos em cartões de crédito superiores a R$ 40.000,00 mensais, viagem para a Grécia, festas de aniversário orçadas em R$ 26.000,00 e interesse na compra de um flat na Savassi, em Belo Horizonte.

O inquérito conclui que as duas esposas atuavam ativamente na operacionalização financeira das vantagens indevidas. Enquanto Kelly geria a empresa de fachada e o “caixa” doméstico de Claudinei, Janaísa figurava como a proprietária formal dos ativos de luxo de Leandro.

Mineração da Empabra na Serra do Curral. Foto: Léo Boi/CBH Velhas Divulgação

Empresário Lucas Kallas teria custeado título de sócio-torcedor para delegado

As investigações sobre Kallas, segundo a PF, também revelaram indícios de corrupção envolvendo o delegado Wagner Sales, ex-superintendente da Superintendência Regional de Meio Ambiente  (Supram) e responsável por assinar, em 2015, o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que viabilizou a operação da Empabra.

Dados compartilhados com a PF da Operação Ouro Negro da Polícia Civil de Minas Gerais em 2020 e que teve uma das empresas de Kallas como alvo, a Cedro Mineração,   mostram Kallas enviando dados pessoais do delegado para uma funcionária da Cedro para o pagamento de um cadastro de “sócio torcedor do Cruzeiro, com valor de R$ 12.000,00”.

O relatório da Polícia Federal conclui de forma direta que “o conteúdo sugere que Lucas Kallas estaria custeando o sócio torcedor de Wagner Sales”, o que reforça as suspeitas de “pagamento de vantagem indevida ou tráfico de influência” envolvendo agente público com histórico de atuação em órgão ambiental diretamente relacionado à Empabra.

“Há indícios de articulação pessoal com agente público que assinou TAC ambiental da Empabra, o que deve ser analisado no eixo de corrupção, captura institucional e favorecimento administrativo, especialmente porque o instrumento de regularização ambiental foi reiteradamente utilizado como suporte formal para a continuidade da exploração da Mina Granja Corumi”, diz o relatório da PF.

No eixo da lavagem de capitais, a PF afirma será necessário aprofundar a investigação sobre a “estrutura patrimonial paralela, com uso de pessoa interposta, ocultação de beneficiário final” no núcleo econômico relacionado à Kallas.

Também usando os dados da Ouro Negro, a PF destaca o registro de patrimônio de R$ 204 milhões, sendo R$ 4 milhões referentes a um apartamento em nome de uma parente de Kallas, no fundo Reag. “O dado não permite afirmar, isoladamente, que recursos oriundos da Mina Granja Corumi tenham sido destinados ao Reag; contudo, reforça a necessidade de aprofundamento da linha investigativa”, informa a PF.

O intermediário “compadre” de Franceschini

No relatório de indiciamento, o advogado Luis Fernando Franceschini da Rosa aparece usando Nívio Tadeu Lasmar Pereira para fazer contato com os dois servidores da ANM. Geólogo e consultor, ele foi indiciado por corrupção ativa, intermediação de influência, associação criminosa, falsidade ideológica e fraude processual. É descrito como o elo de ligação entre os interesses de Franceschini e os servidores da agência.

Segundo o relatório, ele não era apenas um consultor formalmente contratado pela Empabra, mas verdadeiro intermediário de acesso a servidores estratégicos da ANM”.

No núcleo de Claudinei, diz a PF, o geólogo aparece desde, pelo menos, 2020, como contato de confiança do casal, salvo no aparelho de Kelly como “Nivio.compadre”, sendo posteriormente acionado em contextos de aperto financeiro, pedidos de auxílio e circulação de valores.

“Nesse contexto, os pagamentos feitos por FRANCESCHINI a NÍVIO, embora formalmente travestidos de consultoria, adiantamentos, ‘agrado’, ‘comissão’ ou ‘prêmio liberação’, ganham contornos de contrapartida indevida, sobretudo quando confrontados com os vínculos de NÍVIO com CLAUDINEI, LEANDRO e com a atuação funcional desses servidores em benefício da EMPABRA”, diz a PF.

Essa proximidade era monetizada por Franceschini para resolver pendências administrativas complexas. O inquérito relata que o empresário “recorria a NÍVIO sempre que precisava destravar temas sensíveis perante a ANM, como autorização de escoamento de minério, retificação do RAL, desinterdição parcial e atos relacionados à Pilha A”.

Mensagens de WhatsApp confirmam pedidos expressos de Franceschini para que Nívio agendasse reuniões informais. Em agosto de 2023, o empresário solicitou: “Marca com Leandro e Claudinei”, ao que Nívio respondeu pedindo ligação prévia para “combinar alguns detalhes”.

O consultor demonstrava ter acesso privilegiado a decisões internas antes de sua publicação oficial. Em diálogos interceptados, Nívio informou Franceschini sobre andamentos de processos afirmando que o expediente estava “no forno”.

O inquérito aponta que os pagamentos feitos a Nívio não correspondiam apenas a honorários técnicos. As remunerações ganham “contornos de contrapartida indevida” quando analisadas junto aos atos funcionais favoráveis praticados pelos servidores da ANM.

Mineração da Empabra na Serra do Curral. Foto: Léo Boi/CBH Velhas Divulgação

Outro lado: indiciados se defendem

Luis Fernando Franceschini da Rosa informou por meio do seu advogado que não dará declarações nesta fase do inquérito da PF.

O advogado de Claudinei Oliveira Cruz e Kelly Cristina Bonifácio Oliveira Cruz informa que o casal só se manifestará nos autos do processo. Da mesma forma, o escritório que representa Cesar Ferreira de Carvalho e sua esposa, Janaísa Dias Mendes, informa que não apresentará informações à imprensa sobre o caso.

Lucas Kallas não respondeu aos questionamentos sobre a relação com os servidores da ANM, com o delegado da Supram e os apontamentos da PF sobre o fundo Reag. Sua assessoria enviou apenas uma nota alegando que os fatos já foram arquivados.

“A defesa tem plena confiança na demonstração de inocência de Lucas Kallas, pois o indiciamento requenta fatos antigos, já investigados e arquivados pela Justiça. Lucas não tem relação com a empresa investigada desde 2017 e, antes disso, havia sido apenas investidor”, diz sua defesa.  

Tentamos contatos com Nívio Tadeu Lasmar Pereira por meio dos seus contatos da sua empresa de consultoria ambiental, mas não recebemos retorno até o fechamento desta edição.

Não conseguimos contato com o delegado Wagner Sales, ex-superintendente da Supram. Sales não está na lista dos indiciados pela PF. No portal da transparência do governo de Minas Gerais, seu perfil registra que o servidor público está inativo.

O espaço para as alegações dele e dos demais citados que não conseguimos contatos continua aberto para a apresentação das suas alegações e contraponto.


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