Maior terra indígena do Brasil, TI Yanomami sofre com 25 mil garimpeiros ilegais. Alta do ouro preocupa lideranças que tentam evitar disseminação da Covid-19

Helicópteros, aviões e barcos rasgam os céus e rios e entregam 24 horas por dia equipamentos, comida, bebida e recolhem a produção de ouro dentro da Terra Indígena Yanomami, em Roraima e no Amazonas, a maior do Brasil, com 9,6 milhões de hectares, o dobro do tamanho da Suíça. Lá, vivem cerca de 27 mil indígenas.

A presença de garimpeiros, no entanto, já quase empata com o número de habitantes originários: 25 mil garimpeiros, de acordo com a estimativa atual, ocupam indevidamente o território. E a alta na cotação do ouro, em função do coronavírus, pode causar uma nova corrida garimpeira na região e na Amazônia em geral.

“A invasão de garimpeiros está relacionada ao aumento no preço do ouro. Sempre foi assim. Nós estamos muito preocupados. Se o coronavírus entrar no nosso território, lideranças vão morrer. E o governo brasileiro não se responsabilizará”, diz Dário Kopenawa Yanomami, da Hutukara, associação que representa os Yanomami e os Yek’wana.

Um indígena yanomami internado com Síndrome Respiratória Aguda Grave que havia dado negativo para a Covid-19 foi diagnosticado positivo no segundo teste. É o primeiro caso confirmado entre os yanomami. O indígena mora na região do polo base Uraricoera, no município de Alto Alegre, dentro da Terra Indígena Yanomami, área de grande fluxo de garimpeiros.

Até o momento, Roraima tem 42 casos confirmados de Covid-19. A única morte é a de um motorista da Casa do Índio (Casai) de Boa Vista. Ou seja: trata-se de outra pessoa que tinha contato direto e diário com vários indígenas de Roraima em tratamento de saúde.

O primeiro caso de Covid-19 entre indígenas no Brasil foi confirmado em 01 de abril no Amazonas, que já declarou colapso do sistema de saúde. A primeira morte foi confirmada no Pará, em Alter do Chão.

Alta do ouro pode piorar a situação. Garimpo dentro da TI Yanomami mais do que triplicou em 5 anos.

Em março, a Abramp, uma associação de garimpeiros e lobistas fundada em 2017, comemorou a alta do ouro. “Quem aposta no ouro para se proteger contra a crise desencadeada pelo coronavírus tem motivos para respirar aliviado. O ativo já acumula valorização superior a 27% em 2020”, celebra o post.

Em notícia anterior, a associação já considerava os efeitos da pandemia no mercado. Instável, o ouro está cotado em cerca de 1.670 dólares a onça. Nos últimos 5 anos, acumula alta de 25%. No fim de março, ultrapassou os $ 1700. Procurada, a Abramp afirmou à reportagem que é natural que em tempos de crise o ouro se valorize, mas a tendência é que volte à normalidade com o fim da pandemia.

“Em outras crises, não temos notícia de que essa valorização tenha surtido um aumento imediato e significativo no número de garimpeiros e uma explosão de conflitos. Sempre existe a possibilidade, mas a história da mineração não revela isso. É preciso uma série de fatores que se sustentem por um certo período para que se construa esse cenário”, diz a entidade.

Dário Kopenawa conhece bem esses fatores. O garimpo dentro da TI Yanomami voltou a explodir de 2015 para cá. Em menos de 5 anos, o número de garimpeiros passou de 7 mil para os atuais 25 mil. Estima-se que a extração de ouro na região movimente até R$ 100 milhões por ano.

“Eu nunca vi garimpo trabalhando 24 horas dentro da terra indígena sem que o preço do ouro estivesse alto. Quando o valor sobe, todo mundo quer enriquecer. Vários empresários e autoridades estão envolvidas no apoio, logística e alimentação aos garimpeiros. Depois esse ouro chega em Boa Vista e vai para o Rio de Janeiro, São Paulo e para o exterior”, conta Dário.

Povo yanomami sofreu genocídio por garimpeiros no passado

Na década de 80, o povo yanomami sofreu um genocídio causado pela invasão de 40 mil garimpeiros. Mais de 20% dos indígenas morreram. Doenças para as quais os povos não tinham imunidade foram uma das principais causas. Hoje, os yanomami se organizam sozinhos contra o coronavírus. A Hutukara orientou as lideranças a recomendar que os indígenas fiquem no território yanomami, não saiam para Boa Vista ou para municípios vizinhos.

A ameaça interna dos garimpeiros, no entanto, agrava a situação. “Estamos preocupados porque pandemia não tem fronteira. Ela vai chegar. O coronavírus vai entrar no território porque o acesso dos garimpeiros é amplo. Isso vai ser um problema muito grave. E o governo brasileiro e o estado não tem as pessoas prontas para combater o coronavírus, não tem remédio, nada, como será essa barreira?”, questiona.

Dário Kopenawa não tem dúvidas: a pandemia é resultado direto da devastação ambiental no mundo. E a mineração tem um papel preponderante. Mais de 90% dos yanomami estão contaminados pelo mercúrio que escorre do garimpo ilegal. “A mineração é problema, traz doença e epidemia. Nós, povos da floresta, avisamos há muito tempo. E agora aconteceu. Nós não vamos morrer sozinhos, nós morreremos junto com vocês”, alerta.

Dário (esquerda) e seu pai, Davi Kopenawa (direita)

Mais de 40% do território yanomami está coberto por requerimentos e títulos minerários registrados na Agência Nacional de Mineração por empresas de mineração públicas e privadas, nacionais e multinacionais. Segundo o ISA, só na parte brasileira da TI Yanomami, que cobre também a Venezuela, foram identificadas pelo menos 14 pistas de pouso clandestinas de garimpo ilegal e 1.096 hectares de área degradada, cerca de mil campos de futebol.

Indícios apontam aumento da movimentação de garimpeiros. Fiscalização duramente afetada.

Uma operação da PRF realizada em 15 de março mostra a alta rotatividade dessa logística: foram 1,5 mil litros de combustíveis destinados a garimpo ilegal apreendidos.

Procurados, o governo de Roraima e a PRF não quiseram comentar o que estão fazendo em associação com outros órgãos para coibir a extração criminosa e como o estado irá atuar para combater o coronavírus, a invasão de áreas protegidas e o risco elevado de contágio entre garimpeiros e povos indígenas.

No cargo, Antonio Denarium foi um dos três governadores eleitos pelo PSL, ex-partido de Jair Bolsonaro. Goiano de nascimento, o histórico do governador em Roraima é ligado ao agronegócio, a pecuária e o setor financeiro.

A Funai disse que a preocupação com o aumento da exploração do garimpo ilegal “é pertinente” e que “naturalmente, o contato com garimpeiros deve ser evitado”. No entanto, “todas as Frentes de Proteção Etnoambientais (FPE) estão sendo orientadas à permanência de suas atividades de fiscalização. Orientamos também aos coordenadores de FPE a prorrogação da permanência dos servidores em área para evitar, o máximo possível, trocas de efetivo”.

Em nota, o Ibama afirmou que “as ações de fiscalização previstas no Plano Nacional Anual de Proteção Ambiental (Pnapa) estão asseguradas”. Reportagem da Reuters mostra, no entanto, que um terço dos fiscais estão no grupo de risco e a fiscalização está duramente afetada. Em 2019, 22% das fiscalizações foram cortadas.

O orçamento do Ibama para 2020 é 31% menor e o número de fiscais caiu 55% em uma década. A falta de pagamento neste ano ainda pode paralisar totalmente as fiscalizações em curso.

Indígenas se organizam por conta própria contra o coronavírus

Em nota, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) pediu ao governo federal um Plano de Ação Emergencial que inclui, entre outras medidas, coibir a presença de invasores como garimpeiros nos territórios indígenas.

Em Roraima, além dos Yanomami, diversas comunidades fecharam e estão controlando a entrada de pessoas nos seus territórios, informou o Conselho Indígena de Roraima. Na última semana, comunidades indígenas retiraram garimpeiros de outra importante TI do estado, a Raposa Serra do Sol.

Em todo o Brasil, povos indígenas tem se organizado por conta própria e fechado acessos às suas comunidades para tentar evitar a contaminação.

O Instituto Socioambiental (ISA) lançou uma plataforma para monitorar o avanço da pandemia nas Terras Indígenas e nos municípios próximos a elas. O site reúne as principais bases de dados sobre a doença e a estrutura de saúde no Brasil dispostas em um mapa.

Em toda a América Latina, grande parte dos indígenas estão dentro dos grupos de risco para o coronavírus e sofrem com alto risco que a pandemia traz.

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