Em São Mateus (ES), atingidos passam fome esperando o reconhecimento da Samarco

A notícia é do Século Diário e mostra o absoluto descaso com que a Samarco trata os atingidos e a situação desesperadora com que precisam encarar a realidade de ter seu meio de vida e subsistência destruído e ter que aguardar quase dois anos para – ainda assim – não receber o reconhecimento e o apoio devido.

“Samarco matou peixe, rio, mangue, gente”. Empunhando cartazes com dizeres como esse, os atingidos pelo crime da Samarco/Vale-BHP realizaram um ato de repúdio, nessa sexta-feira (25), no Centro de Convivência de Campo Grande/São Mateus, contra a forma como a empresa Sinergia tem realizado o cadastro dos atingidos ao norte da Foz do Rio Doce.

O temor dos moradores de Urussuquara, Campo Grande, Barra Nova Sul, Barra Nova Norte, Nativo, Fazenda Ponta, São Miguel, Gameleira e Ferrugem, em São Mateus, e de Pontal do Ipiranga e Barra Seca, em Linhares, é de que o pesadelo que já aterrorizou os moradores das comunidades inicialmente reconhecidas, em Linhares e Aracruz, agora se repita com eles.

São dezenas de documentos, entrevistas, preenchimento de formulário, espera para recebimento de cópia, complementação, envio pelos correios e uma espera – que para quem passa fome e perdeu o principal elemento de identidade cultural e profissional é uma eternidade – sem prazo pré-definido, para a resposta sobre o enquadramento ou não em algum “perfil de atingido” definido pela Fundação Renova e o consequente aceite ou recusa do cadastro.

“Já era para estarmos com os cartões. A Defensoria Pública já enviou os nomes das pessoas, com os documentos pessoais. Não queremos mais essa demora”, protesta, em nome dos presentes no protesto, a pescadora Eliane Balke, coordenadora do Fórum Norte da Foz – coletivo congrega os atingidos ao norte da Foz do Rio Doce e tem atuado com a Defensoria Pública Estadual e o Ministério Público Federal para o devido reconhecimento de todos os impactados pelo crime.

Apesar de igualmente impactadas pela lama, essas onze comunidades de Linhares e São Mateus somente foram reconhecidas pelo Comitê Interfederativo (CIF) no dia 31 de março de 2017, quase um ano e meio depois do rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Mariana/MG. E o início do cadastro, para emissão do cartão de auxílio emergencial, só teve início nesta semana, com quatro meses de atraso, segundo a Deliberação 58 do CIF.

“Já fiz um cadastro no ano passado. Dia 12 de maio entraram na minha casa em Urussuquara e tiraram fotos dos meus documentos, inclusive o meu Registro Geral da Pesca, e dos apetrechos de pesca. Levaram cópia de todos os meus documentos e nunca tive resposta. Um absurdo”, relata Eliane, que teve de se mudar para Campo Grande, devido a dificuldades de pagar o aluguel e as contas da antiga.

“De que vale ter carteira de pesca, ser povo tradicional? Não tá valendo nada. Quanto vale esse território? Não é nem do Espírito Santo esse território. É da Samarco, é da Vale”, protesta.

Durante todo esse período, quase dois anos, a única ação do Poder Público foi a doação de uma pequena cesta básica, pela Prefeitura de São Mateus, a pouco mais de 40 famílias. Há quatro meses, nem isso. Foi somente uma doação, que não teve continuidade.

“A Defensoria Pública vai convocar uma reunião com a Renova, a Prefeitura e o Ministério Público pra que alguém se responsabilize pelo menos pelas cestas básicas, porque as pessoas estão passando fome”, conta a pescadora. “Hoje mesmo, eu almocei, mas não sei se vou jantar”, revela.

Essa semana um grupo de estudantes de Linhares arrecadou 14 cestas básicas, que foram compartilhadas entre as mais de 100 famílias da região. “Quem diria que em um local tão rico, uma das bacias mais ricas do mundo, o próprio Estado não tenha ciência nem consciência de uma situação de tanta vulnerabilidade que o povo está passando, e faz de conta que não vê”, reclama a coordenadora do Fórum.

“Não tem turismo mais, acabou. Aquele turista que vinha jogar linha na praia, algum ainda vem, mas não pega nada. A praia tá vermelha, a areia tá vermelha, da lama”, lamenta.

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