ANÁLISE
O termo “minerais críticos” foi criado justamente para designar os minerais essenciais ao complexo industrial-militar durante a I Guerra Mundial, no início do século XX.
Entre idas e vindas, adaptações, expansões e apropriações, somente nas últimas duas décadas, um século depois, é que o termo foi retomado, assim como suas variações – estratégicos e essenciais – e passou por um banho de loja para ser aplicado na transição energética.
Os minerais críticos, porém, continuam fundamentais para a indústria militar. Sem estes minerais não existe guerra. Eles são a base primordial pela qual é construída todos os caças, drones, tanques, aviões, navios, balas, mísseis, bombas e todo o aparato de guerra.
Eles também são críticos por outra razão: não tem para todo mundo. A indústria militar compete com a indústria de tecnologia e a IA, cada vez mais demandante, com os carros elétricos e a própria eletrificação em si e, sim, com as energias renováveis, dentre inúmeros outros usos, que pedem cada vez mais minerais a quantidades muitas vezes não disponíveis na escala e velocidade que esses setores exigem.
A sanha neocolonialista de Donald Trump ilustra isso perfeitamente. Com a guerra contra o Irã custando mais de 1 bilhão de dólares por dia e uma máquina de guerra cada dia mais expansionista, cujos alvos aumentam ao sabor dos interesses imperiais da Doutrina Donroe – Venezuela, Irã, Groenlândia, Colômbia, Cuba e contando – todo o governo dos Estados Unidos está mobilizado com um objetivo: obter a maior quantidade de minerais críticos possível no tempo mais curto imaginável.
Como as coisas na mineração tendem a levar muito mais tempo do que os desejos de Trump gostariam de ser atendidos, a conta tende a não fechar. O risco é, no mínimo, frear um pouco a sede americana no médio prazo. Mas o estoque militar americano não é desprezível e a corrida por estocar os minerais já na mão também está em curso.

O Pentágono emitiu um pedido para que mineradoras ajudem a aumentar o fornecimento doméstico de 13 minerais críticos – como níquel, grafite, tungstênio, vanádio e elementos de terras raras – um dia antes de Estados Unidos e Israel atacarem o Irã, informa a Reuters. Os EUA dependem da importação de todos esses minerais – e de muitos outros – cuja cadeia global é dominada pela China.
Não é um movimento isolado, mas parte de uma série de ações planejadas exatamente com o mesmo objetivo: manter a fabricação de artefatos militares em alta, fornecer insumos aos bilionários de tecnologia e IA que dão sustentação ao governo e às próprias Forças Armadas americanas, e tentar diminuir a dependência chinesa. Nossa matéria recente sobre o investimento dos EUA em terras raras no Brasil detalha um dos pontos dessa estratégia.
A China, afinal, tem um gigantesco ativo geopolítico nas mãos – exatamente ao mesmo tempo em que é atacada pelos EUA no estrangulamento do fornecimento de petróleo e outros insumos via Venezuela e Irã, o que inclui ainda o fechamento do Estreito de Ormuz. Se você desconfia de que isso não tem como dar em coisa boa, não só para os envolvidos, mas para todo o mundo, com impactos sistêmicos nas cadeias de energia, mineração, combustíveis, alimentos, fertilizantes e tudo mais que você puder imaginar, acertou. Percebe o tamanho do problema?
Formalmente, o Pentágono solicitou aos membros do Consórcio da Base Industrial de Defesa (DIBC, na sigla em inglês), um grupo de mais de 1.500 empresas, universidades e outras entidades que fornecem às Forças Armadas, que apresentassem propostas até 20 de março para projetos que pudessem minerar, processar ou reciclar minerais selecionados. O importante é assegurar a oferta, não importa a fonte. Se virem, no popular.
No mês passado, autoridades do governo Trump lançaram um fundo de reserva de minerais de US$ 12 bilhões, o chamado “Project Vault”, apoiado pelo Banco de Exportação e Importação dos EUA, e propuseram um bloco comercial preferencial de minerais com mais de 50 aliados. Esse bloco comercial – FORGE – teria como objetivo usar preços de referência para minerais derivados, em parte, por um programa de inteligência artificial criado pelo Pentágono. O anúncio também envolve o investimento direto dos EUA em diversas empresas em todo o mundo, incluindo a Serra Verde, em Goiás.
A estratégia vai do armazenamento de minerais críticos ao aumento da produção, passando por grana americana nova e na mobilização de toda a cadeia interna dos EUA e de dezenas de parceiros no mundo, todos devidamente convidados – vamos colocar assim – a participar da empreitada por Donald Trump, insatisfeito em depender tão brutalmente da China.
Como nada no setor mineral muda da noite para o dia e mesmo os países ricos levam quase 20 anos para que uma mina saia da fase inicial de pesquisa para a exploração comercial de fato, tudo indica que veremos uma corrida de destruição aumentando em escala exponencial enquanto Trump e companhia estiverem no poder. Será preciso uma coalizão de líderes acima da média, uma sociedade civil organizada e informada, um corpo de pesquisa atuante e uma imprensa independente para frear estes excessos e buscar outros caminhos. No momento, não é o que acontece.
Para assegurar o suprimento desses minerais críticos, sem os quais a indústria militar, de tecnologia e aeroespacial entram em colapso, pouco importa o chamado direito internacional, as ilusões democráticas, os supostos freios e contrapesos, o multilateralismo e as mínimas bases de comércio e relações diplomáticas firmadas nas últimas décadas mesmo pelas potências do Norte, que dirá das zonas de sacrifício e exploração desigual aqui no Sul.
Terras indígenas, assentamentos rurais, territórios quilombolas e unidades de conservação, essenciais para o modo de vida de populações nativas e tradicionais, para o equilíbrio do clima no planeta e até para a segurança alimentar, que estão no caminho da expansão da mineração e registram milhares de requerimentos minerários no Brasil, tendem a perder a disputa.
Assim como pouco importa o sangue derramado de civis e de crianças inocentes. Às favas os escrúpulos de consciência, diriam alguns.
Bem-vindo à era do vale-tudo mineral.
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